Cuocos Cantantes

24 04 2008

Ela estava sentada naquele canto oblíquo há horas. Os tic tacs se misturavam na sua cabeça. Seu mundo era apenas um recorte assimétrico daquela sala poluída. No seu mundo apenas uma cadeira colorida com fotografias dos seus filmes preferidos e, em cima dela, uma caixa. A caixa. Verde? Amarela? Amarela esverdeada talvez. Que importância teria a cor daquele objeto? Verdes e amarelos, diversos na paleta, se misturavam atrás dos seus olhos. Lá detrás, no local onde moram as lembranças.

Os passeios cantantes do cuoco acima da sua cabeça não eram suficientes para reviver todos os quilômetros percorridos até o momento em que se deteve diante da caixa verde amarelada. Prostada, hipnotizada, patética! Tentando lembrar (ou não lembrar?) dos momentos aprisionados no objeto de cores diversas.

Por que devolvemos a alguém a vida vivida? Como ousamos aprisionar numa caixa amarela (ou verde?) sentimentos partilhados e momentos de dor e amor? Como aquela caixa chegou ali?

Seu estado de prostação era tal que, mesmo nos momentos em que as doces recordações enchiam aquela caixa dos verdes dos parques onde tantas vezes rolaram na relva sob um sol amarelo de doer olhinhos felizes e brilhantes, era-lhe impossível mover os braços para tocar o objeto. Algumas lembranças eram capazes de crispar todo o seu corpo e deixá-la ainda mais longe do receptáculo que as continha.

Por vezes, tentava estender os braços e tocar aquele mundo que lhe pertenceu até tão pouco, até horas atrás. Quantas? Não tinha mais noção de quantos passeios cantantes o cuoco, acima da sua cabeça, havia feito desde que se sentara no oblíquo da sala, a mirar a caixa e divagar.

A vida se faz e desfaz em rápidos passeios dos cuocos e tudo que vivemos pode ser acondiocionado em uma caixa onde caberia um par de sapatos, apenas um. Não importa o tamanho da dor, vivida ou na iminência de: a caixa sempre será menor do que gostaríamos que fosse.

Não mais que dois palmos a separavam da colorida e cinéfila cadeira, mas o peso dos seus braços impedia que alcançasse e resgatasse as cores das suas lembraças. As cores que antes lhe pareceram tão fortes, começavam a esmaecer. Reviver o que aquela caixa acondicionava com tanta graça, trouxe-lhe sentimentos tão fortes e díspares, que parecia-lhe ter vivido a intensidade de toda uma vida em alguns passeios cantantes do cuoco acima da sua cabeça.

Detinha-se agora a tentar adivinhar o conteúdo de tão graciosa caixa.

De repente uma voz a resgasta das suas profundas recordações: “você desagua em mim e eu oceano”… Percebeu que o mundo era maior que o canto oblíquo com uma cadeira colorida e a caixa verde amarelada.

Desaguou e passou a ver os outros cantos oblíquos e ouvir os demais sons que a circundavam. Buzinas e vozes invadiam a sala. Eram 18:10 e a escola que ficava ao lado abria as portas para que as crianças, apressadas, pudessem ir ao encontro da sua liberdade infantil.

Sentiu naquele momento que a caixa estava no passado, não muito distante, mas inatingível. Seu presente era a algazarra feliz dos pequenos e as buzinas nervosas dos pais. Seu presente era um imenso vazio e a voz: “esqueço que amar é quase uma dor…”.





POBRE MENINA

3 04 2008

Era uma vez uma menina loirinha e sua caixa de recortes de gente.

A menina criava pessoas e reduzia seu mundo para engrandecê-lo. A caixinha de gente de papel era um verdadeiro mosaico de personalidades e tipos. Naqueles papéis, a rosada menina vivia os mais diversos papéis sociais. A pequena tentava ensaiar a vida, como se fosse possível, na vida real,  fazer e refazer a mesma cena.

Era uma vez uma menina branquinha e sua enxaida de trabalhador braçal.

A roliça menininha empunhava sua enxaida e passava horas puxado-a pela areia a formar caminhos. Enquanto deixava marcas na areia, a pequerrucha contava histórias de gente que chega e vai. E da vida que nunca para de ir. As “estradas” quase existiam por acaso; o importante ali era a estória inventada enquanto estradas eram criadas. A menina viu gente chegar e partir e jamais se conformou com as partidas, nunca aprendeu a lidar com as perdas, apesar de ter tentado, desesperadamente, criar estradas dentro dela.

Era uma vez uma garotinha de olhos eternamente molhados e suas gavetas de apartamentos.

Suas gavetas, ao invés de estarem cheias de roupas e apetrechos femininos, eram lotadas de gente e seus pertences de papel. As pessoas que iam e vinhas pelas estradas de areia, que nasciam do manejo das suas mãozinhas no papel e tesoura, que habitavam a “caixa de gente”, ensaiavam a sua vida naquelas gavetas transformadas em lares. Ali, naquele pequeno teatro da vida, os papeizinhos ganhavam forma,  vida e história. E a menina ia tentando experimentar a vida.

Era uma vez uma menina que ficou grande e nunca conseguiu refazer as cenas ensaiadas nas gavetas, com aquela gente que vivia em caixas e nascia de papéis e tesouras.

A menina grande e que agora se assusta com gavetas cheias de roupas e apetrechos femininos, fica a se perguntar onde está aquela gente toda e por que elas foram trocadas por dezenas de pares de sapatos e lingerie. A menina não sabe qual par escolher para trilhar aqueles caminhos de areia e nas suas gavetas já não há mais espaço para gente e objetos de papel. Na sua vida já não há mais lugar para ensaios.

Agora é a “vida real”.

Pobre menina!





AS DOBRAS DO TEMPO

3 04 2008

Não entendo muito bem estas questões metafísicas como “as dobras no tempo”. Talvez meus neurônios já não consigam realizar sinapses como antes, ou talvez meu “hd” esteja lotado e eu não esteja conseguindo encontrar, nas prateleiras dos supermercados, upgrade para cérebro. Mas de uma coisa tenho certeza: o tempo “normal” passa, mas ficam, nas dobras no tempo, experiências cristalizadas que criam em mim uma espécie de dor mística.





OH METADE DE MIM!

21 02 2008

Jamais imaginei ser assim minha Metade.

Uma narcísica só verá no espelho o que é seu. Não reconhecerá o estranho refletido.

Mas nem narcísica sou!

Só que minha Metade me pareceu tão estranha! Sim, estranha de início.

Depois as partes foram, pouco a pouco, se encaixando. Aqui sobre, lá falta…

Quanto de ti careço! Quanto de mim é pura doação!

O tempo apara e torna mais suave o encaixar.

Quantas descobertas em ti foram modificando em mim o reflexo.

Quanto de ti ajudou-me a ser um humano melhor.

Metade de mim é carência, Metade doação. Metade leite abundante da vida, Metade café quentinho e aconchegante.

É arte unir parte. É sabedoria reunir seres.

Para ti, que não é parte arrancada, mas Metade somada; minha eterna admiração.

Para ti meus beijos ardentes e minhas lágrimas de sincero pesar. Quando pesa a vida.

Tu que és ombro, lábios e aplaca a minha fome. Preenche vazios sempre ávidos de ti.

Oh estranha Metade!

Tão distante no tempo, tão próxima no espaço!

Tão próxima nos desejos e atitudes.

Tão distante na crença e tão próxima na prática!

Tu, que não estavas ao meu lado na alvorada, estarás no ocaso?

Não importa, foi ao acaso que me encontraste.

Seguirei assistindo ao seu belo desabrochar e às vitórias que estourarão no seu caminhar.

Sempre por perto.

Enquanto soubermos semear vida à nossa volta em todo o nosso caminhar.





ADEUS MENINOS

15 02 2008

dscf0988-863-x-1151.jpg

Um dia, assim sem mais nem menos, sem que você tivesse tempo para se preparar e sem aviso prévio, você faz uma descoberta surpreendente: seu bebê cresceu!

Minha nossa, como os traiçoeiros anos fizeram velozmente sua passagem! Os seus braços não dão mais conta de embalar um garotinho tão grande e bem alimentado! Boi, boi, boi, boi da cara preta… Pára com isso; que mico! Quero “Toda Boa” no meu MP4. Oh… tão tecnológico quanto a mãe, que orgulho!

Mas como dar conta de hormônios que ameaçam aflorar? E o novo colégio? Tão grande, diferente, assustador!

Como lidar com o primeiro amor e as lágrimas que, provavelmente, o acompanhará? Ver o seu bebezinho sempre tão bem cuidado, embalado, lembrar das fraldas trocadas, das noites mal dormidas, dos banhos carinhosos,  da massagem no seu corpinho macio, dos cuidados dia após dia, direcionar os olhos para outra mulher pode ser uma experiência dolorosa. Como aquele projeto que só tinha olhos para você, pode, de repente, se “engraçar” por aquela magricela? Ultrajante! Mas esperado! Bom que aconteça, por mais que o ciúme corroa silenciosamente o seu ser.

As dores do crescimento se repetem, para as mães, com todos os seus filhos. Por mais que os deixemos livres para viver, experimentar e sofrer (ah, isso não; que o sofrimento venha em dobro para mim) nunca desgrudamos os olhos deles, sempre enxergando-os com os olhos da primeira vez. Sempre pequeninos e indefesos, sempre necessitando da nossa proteção.

Somos filhos melhores depois que nos tornamos pais. Meu Pai sempre diz que os filhos pagam aos filhos o que os pais fizeram por eles.

Fazemos muito por eles e eles não nos devem nada. Isso é amor em estado puro.

Queremos para nosso bebês apenas uma coisa: o que houver de melhor no mundo. É muito? É o mínimo!

Que amadureçam em paz os nossos  pequenos e que sejam para sempre, aos nossos olhos, aqueles projetinhos que acabaram de sair do nosso imenso útero materno.





Uma “blogada” no coração

13 02 2008

natal-2005-e-janeiro-barra-grande-2006-026.jpg

O que me leva à escrever não é o saber exarcebado, a técnica apurada ou a necessidade de que outros me conheçam. A emoção me remete às palavras! O “start” para que os sentimentos aflorem pode ser uma música, um filme (sim, sempre os filmes!) ou até mesmo a leitura de um blog. Hoje um blog quase me leva às lágrimas e me empurrou à escrita. Não é um blog comum, mas sim o de uma pessoa que, além do apurado saber gramatical, possui sensibilidade e arte na lida com as palavras.

Chega a ser estranho uma estranha no mundo real me parecer tão íntima! A leitura do seu blog foi fazendo com que, aos poucos, eu admirasse essa garota que parece um ser iluminado e ímpar. Agora, na sua fase gestacional, a duplicidade de pessoas dentro de uma parece ter multiplicado sua sensibilidade. Concluí: pessoas podem crescer em progressão aritmética, mas sentimentos, com certeza, crescem em progressão geométrica.

Lendo sobre bracinhos, cabecinha, pezinhos… me peguei com vontade de “maternar” (adoro criar palavras) outra vez. É lindo pegar um projetinho no colo! Sou mãe de garotão de 10 anos e sempre me emociono quando ele me chama Mamãe.

Estou vivendo uma fase em que a maternidade tem me rondado, apesar de não estar mais na idade de engravidar (tampouco minhas amigas). São histórias de adoção (muitas) e gravidez de conhecidas.

Não consigo me ver outra vez grávida e envolvida com fraldas, mamadeiras, choros noturnos… Será que o que separei para doar ao outro reduziu-se? Porém vivo uma relação um pouco afastada da curva da normalidade e o meu escolhido nunca viveu a experiência da paternidade. Sei que este fato me leva a estar mais próxima dos barrigões. Que medo!

A garota do blog que citei acima nem sabe que eu existo, mas gostaria de dizer para ela que, com certeza ela é, com exceção da extensa prole, a maior conquista da vida do seu parceiro (olhe que nesta lista estão incluídos todos os títulos ganhos no futebol e os prêmios de melhor preparador físico do ano).

Conheço esta garota blogueira e seus embates com a balança, sua luta por um amor que, aos olhos dos outros, pertencia a um outro alguém, seu retorno à faculdade (como estudante), seu enorme carisma com os alunos e diversas qualidades que deixariam uma capa de Vogue Internacional babando de inveja. Esta blogueira é uma verdadeira mulher! Guerreira, disciplinada, doce, inteligente, culta, sensível, amável… Quem não quer uma mulher assim ao lado?

Quando eu crescer quero ser igualzinha a ela.





Itagi é apenas uma foto digital

2 11 2007

itagi1.jpg

Nasci em 64, apenas dois meses após um duro golpe para o meu povo. Vivi uma infância despreocupada e alienada do mundo da política, das armas, cavalos, camburões, polícia, tortura, militares, golpes, ditadura. Eu não podia saber de coisas das quais as pessoas não podiam falar.

Naquela cidade pequena e tranquila não haviam passeatas e estudantes organizados e clandestinos. A vida passava de tal forma arrastada que, em apenas 24 horas, tínhamos tempo de viver toda uma vida.

As noites eram escuras e silenciosas; naqueles momentos eu tinha a sensação que o mundo passava sem mim, que o tempo corria e eu não não “pongava” nele.

A calma da cidade contrastava com a ebulição da minha mente. Por fora quase sempre parada; dentro, um turbilhão de idéias, sensações, questionamentos… Mas eu não fazia idéia do que era o mundo lá fora. Na minha inocente, apartada e claustrofóbica Itagi, a vida resumia-se a ver a vida passar.

Aos treze apartaram-me da apartada cidade da minha infância. Percorri 450 Km para, como um ET, cair na cidade grande e descobrir que existia uma dimensão onde eu nunca havia estado.

Na escola, os professores falavam que haviam coisas das quais eles não podiam falar. Algumas vezes, assisti da minha janela a vida real do Brasil dos anos 70. Era 1978 e nada ia bem por aqui.

Mais tarde um pouco, aluna da Universidade Federal da Bahia, tive a audácia de participar de passeatas de estudantes que batiam tampas de panela e gritavam “palavras de ordem”. Corajosos, ou meio ignorantes (como era o meu caso), íamos para a praça que fica em frente à Secretaria de Segurança Pública e, lotados de adrenalina, esperávamos o pior. Eu nunca me aventurei muito, não era da comissão de frente. Sabia que a minha luta social havia começado desde que abri os olhos neste mundo.

Na infância não aprendi que no mundo existem classes sociais e peles de diferentes cores. Tínhamos empregados em casa, mas eu dormia no quarto com elas. Minha escola era pública e os meus amigos formavam um verdadeiro mosaico deste país. Todos éramos iguais. Isso não era dito pelos meus pais, não foi algo que aprendi didaticamente. Isso era vivido por todos nós.

Sempre me doeu e enfureceu a injustiça. Se me perguntam qual a minha principal característica, respondo de pronto: justiça! Sim, sou justa. Mas imperfeita.

O mundo que conheci na metrópole me encantou e decepcionou.

Os que conheci lutando pela liberdade e igualdade nos idos anos da ditadura, hoje não parecem mais tão próximos do seu ideal de um mundo menos desigual. Mas, como o meu aprendizado do mundo foi lento e contemplativo, pude enraizar os verdadeiros valores de humanidade.

Minha antiga e “claustrofóbica” Itagi hoje é apenas uma foto digital no meu notebook. Mas como me faz feliz enxergar as raízes fortes e determinadas que esta infância despreocupada criou em mim!





A Vista Da Torre

30 10 2007

torre1.jpg

Na torre encantada do palácio em meio ao pântano

Havia uma princesa solitária e linda

A princesa tudo enxergava

A todos

Seus olhos atravessavam enormes campos

Seu olhar podia penetrar

A todos

Era alta sua torre

Tão alta, que dela podia avistar o além horizonte

Tudo sabia a solitária e linda

Princesa que tudo avistava

Tudo tão distante e tão lindo

Tão assustador o mundo visto

Do ângulo que tudo avista

E contempla

Um mundo não vivido

Mas contemplado

Da alta torre que a vista tudo avista

Quem ousaria aproximar-se da torre

Tudo avista e tudo sabe

A torre que acolhe a princesa que nada vive

Tudo avista

E admira a vida contemplada

E contempla admirada a vida não vivida

Quem admira a vida

E vive o que contempla

Ousaria aproximar-se da admirada

Princesa que contempla

De além montanhas e muralhas

Do alto da torre que tudo avista

Vencer o pântano e montanhas

Subir muralhas que a vista esconde

A visão para a admirada princesa

Que tudo avista

Como chegar à bela solidão da princesa

Como enfrentar o dragão que a protege

De viver a vida avistada

A coragem de viver e a ousadia de ver

Levariam o príncipe a avistar a admirada

Princesa que leva em seu coração a vida avistada

E pegar a única arma que imobiliza

O dragão que a protege de viver a vida admirada

No coração da princesa solitária

A arma que lhe trará à vida

Quem ousar tocar o coração da bela

A trará para a vida que admira

E a terá admirada e amada

E a princesa admirará

A vida que avistava

E amará o corajoso príncipe

Que ousou tira-la da torre

Para viver o que avistava.

Suze

03/10/06





Meu Mundo Caiu

29 10 2007

mundo1.jpg

O lugar pode ser considerado bairro de elite. A padaria, ou melhor, “delicatessen”, é frequentada por famílias endinheiradas com crianças rosadas e coloridas, casais com suas griffes da moda, senhores e senhoras com ar distinto, jovens sorridentes e barulhentos e mais alguns tipos que compõem o “nosso mundo”.

Na porta um vigilante. Nas imediações muita gente circulando.

Estacionamento? Na porta, claro! Ou chaves na mão do manobrista.

Tudo parecia muito tranquilo e seguro para uma mulher sozinha fazer algumas compras emergenciais.

Na saída, um olhar rápido para o vigilante que conversava animadamente com um cliente. Alguns passos até o carro, o barulhinho do alarme avisando que o acesso ao interior do veículo estava liberado e, como sempre, um olhar em volta como se pressentisse o perigo. Ponto de ônibus? Parecia. Algumas pessoas estavam próximas e aguardavam. Alguém caminha na minha direção. Não, não há perigo, ele pertence ao “meu mundo”.

Se aproximou como se fôssemos velhos conhecidos, pediu para que eu ficasse calma e que não iria me machucar. A abordagem foi tão amigável, que, por segundos, tive a sensação que ele me daria dois beijinhos no rosto. Não houve beijos, mas ele se comportava como se me conhecesse, apesar de ter me mostrado, em sua cintura, um revólver que me fez estremecer inteira.

Fui tirando minha bolsa do ombro num gesto que se assemelhava a um reflexo. Ele, rapidamente, me disse com um leve sorriso nos lábios: não quero sua bolsa, ela é muito grande. Juro que senti vontade de rir, apesar da tensão que o objeto brilhante na sua cintura me causava. Naquele momento parecíamos tão próximos! Mas, afinal de contas, ele tem cara de que pertence ao “meu mundo”.

Sem irritação e com bastante calma, me pediu que abrisse a bolsa e fosse tirando os objetos. Na sua mão, uma sacola pequena. Boticário? Não me lembro. Mas sei que a sacola também pertencia ao “meu mundo”. Muitas bugigangas foram tiradas e recolocadas. A carteira: “apenas o dinheiro”. Tirei todo o dinheiro; R$ 122,30. No meio de papéis amassados, um talão de vale refeição, este ele aceitou. Uma HP, minha inseparável HP. Dois celulares. Dois?!?!? Sim, dois aparelhos, com seus chips e as preciosas informações que eles contêm. “Bonito seu relógio”. Era a senha. Lá se foi um dos queridos da minha coleção. Ele colocou a mão dentro da minha bolsa e foi pegando coisas: batom (devolveu), mais batons (devolveu), gloss (devolveu), agenda, post-it, pente, espelho, hidratante para as mãos, fio dental, remédio… Tudo recolocado na bolsa, no seu devido lugar, ou melhor, na sua incomparável bagunça.

Pediu que eu entrasse no carro e saísse. Não falasse com ninguém e fosse rapidamente para longe dali. Fiz isso e não sei o rumo que tomou o tal rapaz.

Não era um rapaz que me fizesse sentir pena (como aconteceu com o apresentador Hulk e seu Rolex), até o medo que a situação costuma provocar era menor do que das outras vezes. Afinal de contas o “deliquente” parecia pertencer ao “meu mundo”.

Costumo dizer que sou contra a pena de morte porque algumas pessoas já nascem condenadas à morte. Nascem sem esperança e sem expectativa.

Mas não somos todos condenados? Qual será a tênue linha que separa o “meu mundo” dos “outros mundos”?

Agora me pergunto: de que mundo sou?





Love Story

17 10 2007

cinema1.jpg

Miltinho cantava sem parar. Sua voz anasalada podia ser ouvida em toda a cidade: “você mulher, que já viveu, que já sofreu, não minta…”. O auto-falante não precisava anunciar; todos sabiam que era próxima a hora de mais uma sessão.

Na bilheteria uma loira séria, na entada da sala um homem maduro e no alto da casa, escrito em letras que saltavam em relevo, “Cine Jumar”. De onde surgiu aquele nome? Derivado de que? Junção de nomes? Pouco importava.

Lá dentro, algumas fileiras de cadeiras de madeira (sem almofadas) e um público alegre e falante. Alguns casais nas filas que apelidamos de “cadeiras dos namorados”. Elas ficavam no fundo do cinema, um lugarzinho mais escuro, discreto e aconchegante. Passávamos por elas para ter acesso à escada que subia até o local mais sagrado: a sala de projeção. Pelo caminho, nós, tentando parecer invisíveis, íamos prestando atenção em cada detalhe daquelas mãos entrelaçadas, beijos discretos e outros nem tanto. A escada era estreita e, no final dela, a sala de projeção!

Precisávamos esperar que a sirene soasse três vezes antes que a aguardada sessão iniciasse. De repente, a escuridão. Começava o mágico momento em que eu era tragada para um mundo de sonhos e fantasias. Primeiro algumas propagandas, filmes de curta-metragem, desenho animado (o que mais me lembro era de um esquilo que se movia ao som de Bach) e depois o longa. Tudo era sublime, desde o momento em que as luzes se apagavam: a tela sendo preenchida com as imagens, os sons, o barulho do projetor… Em alguns momentos eu era subitamente arrancada daquele sonho: a fita se partia, o filme parava, as pessoas gritavam (”olha o meu dinheiro”) e assoviavam e as luzes acendiam. Era o momento real de “remendar” a fita. Depois, com tudo de novo em funcionamento, a normalidade se reestabelecia. Eu, claro, embarcava outra vez nos meus sonhos. Ora Jane, ora uma “Criatura Que O Mundo Esqueceu”, muitas vezes uma dama de longos vestidos do velho-oeste e outras tantas no lombo do cavalo de Django.

Visitei o mundo à bordo daquele projetor. Meu mundo interno se enriqueceu e inquietou. Eram muitas indagações e muitas respostas também.

Era assídua no cinema. Assistindo através dos buracos da sala de projeção, sentada nas cadeiras ou no pé da escada olhando “os namorados”. Sempre um filme novo.

Um dia Meu Pai desistiu de projetar. Não lembro que esta decisão tenha me causado dor, mas agora traz lágrimas aos meus olhos. Eu não sabia o por quê de ter que ficar sem assistir filmes, ficar sem os meus sonhos. Hoje sei.

Muitos anos se passaram e eu deixei “o cinema” meio adormecido dentro de mim. De repente me redescobri cinéfila e nem sabia o motivo. Que boba! Será que precisava que Giuseppe Tornatore me ajudasse com seu Cinema Paradiso? Que Toto fizesse aquela colagem de beijos e arrancasse uma enxurrada de lágrimas dos meus olhos?

O Cinema é herança do meu pai, um cinema que, de tanto imaginar, acabei por construir no mundo real. Hoje tenho um Cinema. É o mais lindo da cidade! Ele é fruto da combinação de uma herança, amor, sonhos, trabalho, fé e uma pitada ( a gosto) da minha Amiga Infanta!

Que bom pertencer ao mundo real e poder sonhar na imaginação destes diretores. A sala escura do cinema é como um útero quentinho e acolhedor. Não quero sair dela.