Ela estava sentada naquele canto oblíquo há horas. Os tic tacs se misturavam na sua cabeça. Seu mundo era apenas um recorte assimétrico daquela sala poluída. No seu mundo apenas uma cadeira colorida com fotografias dos seus filmes preferidos e, em cima dela, uma caixa. A caixa. Verde? Amarela? Amarela esverdeada talvez. Que importância teria a cor daquele objeto? Verdes e amarelos, diversos na paleta, se misturavam atrás dos seus olhos. Lá detrás, no local onde moram as lembranças.
Os passeios cantantes do cuoco acima da sua cabeça não eram suficientes para reviver todos os quilômetros percorridos até o momento em que se deteve diante da caixa verde amarelada. Prostada, hipnotizada, patética! Tentando lembrar (ou não lembrar?) dos momentos aprisionados no objeto de cores diversas.
Por que devolvemos a alguém a vida vivida? Como ousamos aprisionar numa caixa amarela (ou verde?) sentimentos partilhados e momentos de dor e amor? Como aquela caixa chegou ali?
Seu estado de prostação era tal que, mesmo nos momentos em que as doces recordações enchiam aquela caixa dos verdes dos parques onde tantas vezes rolaram na relva sob um sol amarelo de doer olhinhos felizes e brilhantes, era-lhe impossível mover os braços para tocar o objeto. Algumas lembranças eram capazes de crispar todo o seu corpo e deixá-la ainda mais longe do receptáculo que as continha.
Por vezes, tentava estender os braços e tocar aquele mundo que lhe pertenceu até tão pouco, até horas atrás. Quantas? Não tinha mais noção de quantos passeios cantantes o cuoco, acima da sua cabeça, havia feito desde que se sentara no oblíquo da sala, a mirar a caixa e divagar.
A vida se faz e desfaz em rápidos passeios dos cuocos e tudo que vivemos pode ser acondiocionado em uma caixa onde caberia um par de sapatos, apenas um. Não importa o tamanho da dor, vivida ou na iminência de: a caixa sempre será menor do que gostaríamos que fosse.
Não mais que dois palmos a separavam da colorida e cinéfila cadeira, mas o peso dos seus braços impedia que alcançasse e resgatasse as cores das suas lembraças. As cores que antes lhe pareceram tão fortes, começavam a esmaecer. Reviver o que aquela caixa acondicionava com tanta graça, trouxe-lhe sentimentos tão fortes e díspares, que parecia-lhe ter vivido a intensidade de toda uma vida em alguns passeios cantantes do cuoco acima da sua cabeça.
Detinha-se agora a tentar adivinhar o conteúdo de tão graciosa caixa.
De repente uma voz a resgasta das suas profundas recordações: “você desagua em mim e eu oceano”… Percebeu que o mundo era maior que o canto oblíquo com uma cadeira colorida e a caixa verde amarelada.
Desaguou e passou a ver os outros cantos oblíquos e ouvir os demais sons que a circundavam. Buzinas e vozes invadiam a sala. Eram 18:10 e a escola que ficava ao lado abria as portas para que as crianças, apressadas, pudessem ir ao encontro da sua liberdade infantil.
Sentiu naquele momento que a caixa estava no passado, não muito distante, mas inatingível. Seu presente era a algazarra feliz dos pequenos e as buzinas nervosas dos pais. Seu presente era um imenso vazio e a voz: “esqueço que amar é quase uma dor…”.


