Em algum momento a cidade deve ter se aquietado no domingo. Sons de gritos, buzinas, fogos estourando… Será que tudo parou? Pouco provável se pensarmos na incurável doença da chamada “nação tricolor” pelo time que muito pouco, ou quase nada, tem retribuído a estes fanáticos saudosistas.
Mas não deve ter sido o silêncio. Não, o silêncio não se fez. É bastante provável que, ainda hoje, eles estejam ganindo pela cidade, fardados de marinheiro e enlouquecidos pelo que consideram um milagre acontecido aos cinquenta minutos do segundo tempo. Milagre? Sim, o milagre da multiplicação da corrupção e das notas em malas ou em contas.
Mas aquietei-me. De um momento para outro é como se o mundo todo silenciasse e minhas pálpebras pesassem quilos que nem braços halterofilistas ousam levantar. Isto trago comigo desde que nasci. Na família costumamos dizer que é uma bênção. E é! Muitos sonham em possuir um botãozinho que possa ser desligado em determinados momentos da vida. Alguns compram este botãozinho na farmácia. Mas nós podemos dizer orgulhosos: temos o poder de desligar, nosso sono chega na hora que queremos. Herança paterna!
Nem os momentos de dor, fome (a dieta me acompanha desde que conheci o espelho), espera ansiosa e outros que nos marcam para sempre, conseguiram me deixar acordada. E o melhor de tudo é que é um sono voluntário. Basta querer e… zzzzzzzzz
Quantos traços trazemos dos nossos! Alguns não herdei, mas tentei aprender nestes mais de 40 anos. Muitos, por mais que tente, não consigo incorporar.
Minha Mãe possui uma característica que é uma das que mais admiro nas pessoas: a alegria e o prazer pela vida! Meus pais vivem como se a vida fosse acabar amanhã e, o melhor de tudo, principalmente para nós, seus filhos, com muita responsabilidade! Acho que esta dádiva deveria ter vindo no meu cromossomo x, mas não veio. Meu Pai; ah, este, com certeza, nasceu com a alma atormentada dos piscianos! Mas trouxe bem dentro de si a imensurável capacidade de amar e admirar alguém. Sua admiração chegou ao ponto de incorporar o que a leve e evoluída alma da minha Mãe trouxe para distribuir neste mundo.
Cresci nesse ambiente festivo e “amigueiro”. Mas fui uma criança chorona, uma adolescente rebelde e uma adulta que nada tem de “feijão com arroz”. Apesar de tudo isso sou feliz e agradecida pelo maior presente que podia ter recebido na vida: estes pais maravilhosos e dois irmãos “amigos”.
Tive que prestar muita atenção na forma como minha Mãe encara a vida para tentar incorporar um pouco deste mágico saber na minha atormentada existência. Mas por que atormentada? Não sei, minha alma traz uma tormenta de séculos. Mas repito, sou feliz! Só que não feliz simplesmente, naturalmente.
No caminho encontrei poucas pedras. Minhas retinas jamais esquecerão quão limpas foram as estradas da minha vida. Sempre me aproximei de “gente do bem”. A família que escolhi (os amigos) não são diferentes da minha essência. Tenho uma Companheira de mais de 20 anos. Não posso dizer que é minha amiga, mas também garanto que sou hetero. Essa Companheira cobra para me receber (sinceramente, isso é o de menos). Ela ajudou-me a assumir a herança dos meus que, inutilmente, tentava esconder. Ela me deu mais vida e um dia eu a dediquei a canção “O Amor”.
O Amor
Gal Costa
Composição: Caetano Veloso (baseado em poema de Vladimir Maiakovski)
Talvez, quem sabe, um dia
por uma alameda do zoológico
ela também chegará
ela que também amava os animais
entrará sorridente assim como está
na foto sobre a mesa
ela é tão bonita
ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
o século trinta vencerá
o coração destroçado já
pelas mesquinharias
agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida
com o estrelar das noites inumeráveis
ressuscita-me
ainda que mais não seja
porque sou poeta
e ansiava o futuro
ressuscita-me
lutando contra as misérias do quotidiano
ressuscita-me por isso
ressuscita-me
quero acabar de viver o que me cabe
minha vida para que não mais existam amores servis
ressuscita-me
para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
ressuscita-me
para que a partir de hoje a partir de hoje
a família se transforme e o pai seja pelo menos o Universo
e a mãe seja No mínimo a Terra
a Terra
a Terra
Existem poemas que parecem tão nossos que poderíamos tê-los escrito. Por isso nunca canso de repetir o que escreveu Mário Quintana:
“Qualquer ideia que te agrade,
Por isso mesmo… é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua…”
Isto me deixou livre para usar as palavras alheias (mas sempre fazendo referência a quem as disse ou escreveu).
Hoje sei que vivo num mundo melhor, apesar do gol aos cinquenta minutos do segundo tempo. Porque meu mundo é interno. Apenas 10% do que me acontece posso atribuir à fatores externos, o restante atribuo à forma como avalio e encaro estes acontecimentos.
Queria deixar um recado a todos que permito que me rodeiem (sim, esta é uma permissão sagrada!): eu os amo!
Suzana Argollo