Posts de Novembro, 2007

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Itagi é apenas uma foto digital

02/11/2007

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Nasci em 64, apenas dois meses após um duro golpe para o meu povo. Vivi uma infância despreocupada e alienada do mundo da política, das armas, cavalos, camburões, polícia, tortura, militares, golpes, ditadura. Eu não podia saber de coisas das quais as pessoas não podiam falar.

Naquela cidade pequena e tranquila não haviam passeatas e estudantes organizados e clandestinos. A vida passava de tal forma arrastada que, em apenas 24 horas, tínhamos tempo de viver toda uma vida.

As noites eram escuras e silenciosas; naqueles momentos eu tinha a sensação que o mundo passava sem mim, que o tempo corria e eu não não “pongava” nele.

A calma da cidade contrastava com a ebulição da minha mente. Por fora quase sempre parada; dentro, um turbilhão de idéias, sensações, questionamentos… Mas eu não fazia idéia do que era o mundo lá fora. Na minha inocente, apartada e claustrofóbica Itagi, a vida resumia-se a ver a vida passar.

Aos treze apartaram-me da apartada cidade da minha infância. Percorri 450 Km para, como um ET, cair na cidade grande e descobrir que existia uma dimensão onde eu nunca havia estado.

Na escola, os professores falavam que haviam coisas das quais eles não podiam falar. Algumas vezes, assisti da minha janela a vida real do Brasil dos anos 70. Era 1978 e nada ia bem por aqui.

Mais tarde um pouco, aluna da Universidade Federal da Bahia, tive a audácia de participar de passeatas de estudantes que batiam tampas de panela e gritavam “palavras de ordem”. Corajosos, ou meio ignorantes (como era o meu caso), íamos para a praça que fica em frente à Secretaria de Segurança Pública e, lotados de adrenalina, esperávamos o pior. Eu nunca me aventurei muito, não era da comissão de frente. Sabia que a minha luta social havia começado desde que abri os olhos neste mundo.

Na infância não aprendi que no mundo existem classes sociais e peles de diferentes cores. Tínhamos empregados em casa, mas eu dormia no quarto com elas. Minha escola era pública e os meus amigos formavam um verdadeiro mosaico deste país. Todos éramos iguais. Isso não era dito pelos meus pais, não foi algo que aprendi didaticamente. Isso era vivido por todos nós.

Sempre me doeu e enfureceu a injustiça. Se me perguntam qual a minha principal característica, respondo de pronto: justiça! Sim, sou justa. Mas imperfeita.

O mundo que conheci na metrópole me encantou e decepcionou.

Os que conheci lutando pela liberdade e igualdade nos idos anos da ditadura, hoje não parecem mais tão próximos do seu ideal de um mundo menos desigual. Mas, como o meu aprendizado do mundo foi lento e contemplativo, pude enraizar os verdadeiros valores de humanidade.

Minha antiga e “claustrofóbica” Itagi hoje é apenas uma foto digital no meu notebook. Mas como me faz feliz enxergar as raízes fortes e determinadas que esta infância despreocupada criou em mim!