A coragem de ser e jogar na cara de todos as nossas diferenças é rara.
Vivemos num mundo padronizado, bem próximo ao “admirável mundo novo” de Huxley. Olhamos em volta e nos deparamos com exércitos de loiras de cabelos lisos. A idade, cor, raça, origem? Impossível adivinhar! Esquecemos que o que nos torna especiais é o que temos de único.
Susan Boyle tentou (e conseguiu) remexer os seus quadris para manter o mesmo ar debochado de tantos outros que ocupam aquele espaço. Tentou com aquele gesto parecer mais jovem, portanto mais aceita, que o seu corpinho de 47 anos teimava em denunciar.
Esta é uma sociedade da embalagem, onde Priscilas só têm espaço na cama de homens endinheirados e sedentos de sexo descompromissado e Susans em aldeias interioranas, cuidando dos afazeres domésticos.
Ambas mostraram seu valor no espaço que, aparentemente, só queria padronizá-las. A tv tem programas débeis porque a sociedade que a consome é imbecil ou a sociedade é débil porque a tv é imbecil? Ou nenhuma das anteriores?
Susan Boyle emocionou com sua voz e belíssima interpretação de “I dreamed a dream”, Priscila surpreendeu com sua mente organizada e enorme coração.
Susan Boyle queria apenas mostrar seu estupendo talento vocal. A tv queria apenas mostar as grossas pernas e o enorme bumbum de Priscila. Susan conseguiu, Priscila conseguiu muito mais do que a tv se propôs! Priscila foi mais que formas arrendondadas e fartas.
Susan foi rápida, em minutos mostrou aos britânicos (e ao mundo) que, antes de julgá-la, fechassem os olhos e apenas a escutassem. Priscila precisou de mais tempo para mostrar o quanto de bom escondia embaixo da bela estampa.
Quanto de nós fica escondido porque o mundo só quer ver o que lhe interessa? Narciso acha feio o que não é espelho? Acho que a maioria de nós acredita que sim e tenta se tornar espelho para o mundo: sou o que você espera que eu seja. Passamos horas torrando em fornos como aqueles galetos que giram nas conhecidas “televisão de cachorro”. E saímos dali realmente parecidas com aqueles tenros galetos. Ou melhor, nada tenras, porque precisamos ser esguias e mostrar ao mundo que controlamos nossos impulsos “primitivos”. Se o nosso prato contiver mais que alface e peixe grelhado, mostraremos a todos que escorregamos na tentação e seremos penalizadas com muitos centímetros a mais nas nossas cinturas e não caberemos em nenhum jeans das monumentais vitines das lojas dos shoppings centers.
Susan caiu em muitas tentações, seu corpo a desnuda.
Como Susan ainda pode acreditar num sonho? Sonhar um sonho? Ela não é mais uma jovem! Apenas aos jovens é dado o fantástico mundo dos sonhos! Mas Susan sonhou e ousou esfregar na cara do mundo que além de “coroa”, gordinha, papuda e nada “fashion”, tem uma voz e sensibilidade para interpretação musical que, pasmem, deixou o mundo de boca aberta e de pé! O mundo aplaude Susan Boyle de pé!
Susan não fez nada além do que se propôs: ela queria cantar como Elaine Page e, magistralmente, entoou seu sonho. Mas as pessoas entraram em um encatamento mágico, elas não esperavam por aquilo. Nada se espera de uma “coroa”, gordinha, papuda e nada “fashion”. O mundo reservado para Susan são as aldeias interioranas, onde ela deveraria, diariamente, cumprir seus afazeres domésticos.
As lindas Priscilas e as desajeitadas Susans sofrem com o mesmo mal.
Não acho que destes episódios necessitamos tirar alguma “lição de moral”. Não partirei para este lado da moral pública e grupal. Acho que necessitamos apenas seu únicos. Carecemos apenas ser nós mesmos!



Se o mundo é preto ou rosa
