O nome não é comum: Gracil. O encontro idem.
A primeira vez que vi Gal foi numa viagem entre Jequié e Itagi. Meu pai fazia uma das suas visitas semanais à tórrida Jequié e Gal voltou conosco de carona. Eu era criança e levava comigo pequenos brinquedos que apertava em mãozinhas gorduchas. Como habitualmente fazia, cochilei durante a viagem, mas não soltei os pequenos brinquedos. Convidei Gal para brincar comigo e com minha irmão Silvana na nossa casa no dia seguinte.
Estávamos as duas no quintal de casa envolvida em nossas brincadeiras quando Gal chegou. Rapidamente a convidamos para se juntar a nós naquela estranha brincadeira: estávamos com fogueiras acesas, panelinhas de barro fumegantes e dento delas… Giz! Sim, estávamos cozinhando giz. Não sei se era uma experiência científica ou apenas traquinagens infantis. Eram tantas!
À partir daí Gal passou a ser minha amiga inseparável! Eu e Silvana éramos por demais molecas e Gal uma garota tímida e com alguns medos (muitos). Mas ela se aventurava nas maiores loucuras comigo, confiava muito em mim.
Lembro-me como hoje da primeira vez que Gal saiu à noite. Eu e Silvana fomos à casa dela e convencemos D. Maria (a querida, amorosa, delicada mãe de Gal) a deixar sua filha sair conosco para um parque que tinha chegado na cidade e depois dormir na nossa casa. D. Maria deixou e fomos exultantes à nossa primeira aventura noturna.
O parque era alegre, cheio de luzes e músicas. Tinha jogos, brinquedos, dança de bonecos e uma estranha atração: “A Mulher que vira bicho”, também conhecida em outras cidades interioranas como “Monga, a mulher macaco”. Compramos o nosso ingresso e nos embrenhamos naquele espaço pequeno e escuro. Estávamos apavoradas, mas aguentamos firmes os gritos e caretas de Monga. Um verdadeiro terror nos invadia quando aquela mulher dentro da jaula se transformava num monstro peludo. O medo era tanto que esquecemos de Gal e da sua virginal experiência. Depois ficamos sabendo; Gal se apavorou e tentou sair do cubículo mas foi impedida pelo funcionário do parque. A luz vinda de fora poderia destruir totalmente aquela montagem terrível! O pior de tudo… No final, como num passe de mágica, Monga sumiu da jaula e apareceu no fundo da platéia, ao lado de Gal! Coitada de Gal! Apavorada, ficou muito tempo traumatizada com a experiência.
As traquinagens que vivemos juntas encheria papéis e mais papéis! Foram brincadeiras, bicicletas, passeios à cavalo, banhos de represa, “cozinhados”, viagens, danças, namoros, risos e choros.
Gal hoje mora em Jequié com sua linda família: D. Maria (que parece ter ficado guardada em formol todos estes anos), Neuza (uma pessoa mais do que querida), Ademar (seu irmão que parece sisudo mas é um anjo), Tupete (que fala parecendo criança) e mais sua cunhada Vilma e todos os sobrinhos. São cheios de amigos e têm sempre a casa cheia: de gente, de vida e de alegria.
Sinto muitas saudades daquele tempo e uma certa dor de não estarmos convivendo de maneira mais próxima. Adoraria continuar fazendo parte daquela família unida e alegre. Família amiga! Mas tenho certeza que a qualquer momento que chegar naquela casa, que reencontrar estas pessoas, sentirei como se nunca tivesse ficado longe. Os laços são fortes e honestos. Amo estas pessoas e elas sempre farão parte da minha vida.
Tudo que conquistei desde então não tem o tamanho desta amizade e deste amor. Preciso voltar para este ninho querido, passar uns dias naquela casa aconchegante, comer as delícias de D. Maria, conversar e dar risada. Preciso voltar às minhas origens, reencontrar e estreitar outra vez os laços com pessoas tão queridas. Viver esta vida que é a minha verdadeira fonte de felicdade.
Para Gal, minha primeira e amada amiga e toda a sua família, o meu sincero reconhecimento, gratidão e amor.