
Miltinho cantava sem parar. Sua voz anasalada podia ser ouvida em toda a cidade: “você mulher, que já viveu, que já sofreu, não minta…”. O auto-falante não precisava anunciar; todos sabiam que era próxima a hora de mais uma sessão.
Na bilheteria uma loira séria, na entada da sala um homem maduro e no alto da casa, escrito em letras que saltavam em relevo, “Cine Jumar”. De onde surgiu aquele nome? Derivado de que? Junção de nomes? Pouco importava.
Lá dentro, algumas fileiras de cadeiras de madeira (sem almofadas) e um público alegre e falante. Alguns casais nas filas que apelidamos de “cadeiras dos namorados”. Elas ficavam no fundo do cinema, um lugarzinho mais escuro, discreto e aconchegante. Passávamos por elas para ter acesso à escada que subia até o local mais sagrado: a sala de projeção. Pelo caminho, nós, tentando parecer invisíveis, íamos prestando atenção em cada detalhe daquelas mãos entrelaçadas, beijos discretos e outros nem tanto. A escada era estreita e, no final dela, a sala de projeção!
Precisávamos esperar que a sirene soasse três vezes antes que a aguardada sessão iniciasse. De repente, a escuridão. Começava o mágico momento em que eu era tragada para um mundo de sonhos e fantasias. Primeiro algumas propagandas, filmes de curta-metragem, desenho animado (o que mais me lembro era de um esquilo que se movia ao som de Bach) e depois o longa. Tudo era sublime, desde o momento em que as luzes se apagavam: a tela sendo preenchida com as imagens, os sons, o barulho do projetor… Em alguns momentos eu era subitamente arrancada daquele sonho: a fita se partia, o filme parava, as pessoas gritavam (“olha o meu dinheiro”) e assoviavam e as luzes acendiam. Era o momento real de “remendar” a fita. Depois, com tudo de novo em funcionamento, a normalidade se reestabelecia. Eu, claro, embarcava outra vez nos meus sonhos. Ora Jane, ora uma “Criatura Que O Mundo Esqueceu”, muitas vezes uma dama de longos vestidos do velho-oeste e outras tantas no lombo do cavalo de Django.
Visitei o mundo à bordo daquele projetor. Meu mundo interno se enriqueceu e inquietou. Eram muitas indagações e muitas respostas também.
Era assídua no cinema. Assistindo através dos buracos da sala de projeção, sentada nas cadeiras ou no pé da escada olhando “os namorados”. Sempre um filme novo.
Um dia Meu Pai desistiu de projetar. Não lembro que esta decisão tenha me causado dor, mas agora traz lágrimas aos meus olhos. Eu não sabia o por quê de ter que ficar sem assistir filmes, ficar sem os meus sonhos. Hoje sei.
Muitos anos se passaram e eu deixei “o cinema” meio adormecido dentro de mim. De repente me redescobri cinéfila e nem sabia o motivo. Que boba! Será que precisava que Giuseppe Tornatore me ajudasse com seu Cinema Paradiso? Que Toto fizesse aquela colagem de beijos e arrancasse uma enxurrada de lágrimas dos meus olhos?
O Cinema é herança do meu pai, um cinema que, de tanto imaginar, acabei por construir no mundo real. Hoje tenho um Cinema. É o mais lindo da cidade! Ele é fruto da combinação de uma herança, amor, sonhos, trabalho, fé e uma pitada ( a gosto) da minha Amiga Infanta!
Que bom pertencer ao mundo real e poder sonhar na imaginação destes diretores. A sala escura do cinema é como um útero quentinho e acolhedor. Não quero sair dela.