Arquivo da categoria ‘Criaturas Que O Mundo Esqueceu’

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Colhe o dia, este é o presente!

18/09/2011

Neste final de semana meu passado desabou na minha cabeça. Ninguém me poupou! Deve ter sido alguma combinação astral.

O domingo ainda não acabou, será que vem mais por aí?!?

Eparrei saravá!

 

Colhe o Dia, porque És Ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

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“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.”

29/08/2011

Ando ultra sensível, muito mais que o normal. “Ando tão à flor da pele
Que qualquer beijo de novela me faz chorar”.

Hoje no intervalo do almoço tive que dar uma rápida passada no supermercado e quando estava na fila do caixa fui abordada por uma senhora acompanhada por uma criança (menino de uns 10 anos), com uma pequena cesta básica nas mãos. Pediu-me que pagasse aqueles alimentos para ela, estava “passando necessidade”. Num primeiro impulso disse-lhe que não podia e voltei o meu olhar para a direção oposta. A senhora e o menino ficaram um pouco mais e depois saíram em busca de uma outra pessoa para continuar sua tentativa de levar algum alimento para casa.

Fiquei, de longe, observando os dois andando pelo supermercado e abordando algumas pessoas. A abordagem era sempre da mãe. O menino, um garoto bem vestido para os padrões de pessoas simples e sem posses, parecia não ter muita intimidade com a situação.

Eu, que já tinha ficado triste com a minha negativa, comecei a ficar arrasada com a situação. Pensava naquelas pessoas famintas, naquela mãe em desespero por não ter o que oferecer aos filhos. E se não fosse real? Como assim?!?!? Como pessoas saem de casa pedindo, se humilhando, arriscando-se a serem postas prá fora dos locais onde poderiam circular livremente sem que haja uma real necessidade? Comida… tinham fome, apenas isso! Como se sentir fome fosse “apenas isso”. Como se não fosse quase o fundo do poço!

Quanta dignidade falta a tanta gente!!!

Para que queremos tanto? Por que posso trocar de carro, viajar à Europa, comprar roupas e sapatos que nem preciso, se há pessoas que nada têm? Sofro demais com as injustiças deste mundo e procuro, sempre, não separar pobres de ricos, poderosos de simples mortais. Todas as pessoas para mim são exatamente iguais e assim as trato. Jamais discrimino!

Sofro com a dor do outro, com o sofrimento alheio. Desde pequena aprendi a amar as pessoas de forma cristã, e olha que nem religiosa sou. Não sou uma mulher de fé, mas sou uma mulher de coração e atitude.

Arrasada naquela fila, procurei a mulher para pagar sua cesta básica, não encontrei. Após pagar minhas compras, saí andando pelo supermercado em busca dos dois e encontrei-os abordando um rapaz que se mostrava solícito. Dei um dinheiro para eles e saí, fiquei torcendo para o rapaz incluir nas suas compras a cesta básica daquela mulher com fome. Fome de cidadania, fome de justiça, fome de ser enxergada e respeitada.

Fico me perguntando por que endurecemos, por que parece que aos poucos perdemos a capacidade de nos indignar e nos envolver com o problema dos que nos cercam.

Fico me perguntado por que não endureci.

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Pessimista de carteirinha!

26/07/2011

Salvador é uma cidade em guerra. Não fazemos parte das estastísticas de guerra nem recebemos ajuda humanitária para este fim. Não há repórteres cobrindo o dia-a-dia desta guerra sangrenta. Nossa guerra não é santa. Nossa guerra é civil. Oxalá envolvesse exército e forças de paz!

Lutamos aqui por sobrevivência, dignidade e cidadania. É uma luta criada pela selvageria do capitalismo. Luta dos que querem consumir (seja lá o que for, de comida a droga, de sapatos a roupas de grife) e não têm recursos,  contra quem, previlegiado pela vida, consegue um pouco ou muito destes produtos.

Jovens são mortos em lutas de gangs, brigas de facções de tráfico. Pessoas são mortas porque se recusam a entregar algum bem, parecem titubear, ou simplesmente porque o marginal assim quis.

Cada sinaleira desta cidade parece representar uma mortal “brincadeira” de roleta russa. De longe observamos a luz verde do sinal e torcemos para que não sejamos escolhidos. Sinal vermelho pode significar o disparo da arma, que, com muita sorte, não estará com a bala no tambor do disparo.

Bandidos podem estar em qualquer sinal da cidade e estão em muitos.

Ontem na Av. Garibaldi, lugar onde trafego diariamente, uma mulher foi abordada numa sinaleira, com o susto deixou o carro desligar. Bandidos imaginaram que ela queria fugir e atiraram na cabeça. Teve “sorte”, está em observação no Hospital Geral, consciente. Mais cedo, na sinaleira anterior, outra tentativa de assalto, saidinha bancária.

Passei por este trecho quatro vezes ontem, a última às 21 horas. O sinal ficou amarelo e eu atravessei-o, ficou vermelho na minha passagem. Será que fui fotografada e multada? Caso positivo, me dirão as autoridades: 21 horas não há perigo, não pode ultrapassar sinal vermelho. O que dizer do tiro levado às 16 horas por uma transeunte?

Não pense que é um evento isolado. Não imagine que é um ato terrorista num país pacífico e desenvolvido e que comove pessoas no mundo inteiro. Aqui as pessoas parecem anestesiadas com estas notícias, afinal elas estão diariamente nos nossos jornais. É a vida normal!

Somos indivíduos trancados dentro das nossas propriedades. Cercados de vidros blindados, grades, muros altos, câmeras de observação, segurança particular.

Não espero que melhore, desculpe mas estou por demais pessimista para acreditar no homem.

Será que a religião nos salvaria? Dostoiévski já disse: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Para mim, Deus não existe. Não é sem dor profunda que me percebo e confesso ateia. Mas devo reconhecer que sou uma das pessoas mais “cristãs” que conheço. Eu tenho uma verdadeira preocupação com o outro. Claro que cheia de defeitos e falhas, como humana, demasiado humana que sou.

Religião é ópio sim! Creio que uma sociedade mais justa, amor e atenção dos pais podem nos salvar. Ou seja, não acredito na salvação!

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cadê você em mim?

18/05/2011

Procuro você em mim e nada encontro. Onde estarão seus restos? Nenhum perfume… Olho para os lados e não há marca no lençol, não há seu cheiro no ar.

Foi-se a saudade, a necessidade de você. A necessidade de mim. De estar fingindo amar, de fazer amor sempre que queria. E quero sempre!

Não há registro da sua voz, das suas risadas, não há saudade do café a dois.

Uma música apenas lembra-me você e suas brincadeiras. E não há sentimento envolvido nesta lembrança. Para onde foi tudo? Será que um dia existiu de verdade?

Já não busco torpedos seus no meu telefone, já não me interessam as suas palavras. Não espero ver seu nome surgir quando meu telefone toca e, devo confessar, talvez ficasse até um pouco decepcionada.

Não há seu toque em mim, não há registro das suas mãos e dos caminhos que elas seguiram no meu corpo. Todas as suas pegadas em mim foram apagadas.

Nem um restinho? Nem uma pontinha de átomo enrolado no meu DNA? Nada?

E de onde vem este texto? De onde resgatei você para saber que você já não há?

Num lapso, num acontecimento, numa música, na proximidade de um dia especial…

Mas já não há!

Não há você, não há saudade, não há mais o que fui.

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O Abandono de Todos Nós

28/04/2011

Reportagem sobre crianças aguardando adoção: infância de olhos perdidos e tristes, espera e desesperança. Os olhos meus não têm como resistir às lágrimas que brotam aos montes.

Acho que a TPM, que ainda não me abandonou, contribui um pouco para esta melancolia.

Muito tocada com tudo isso, sempre me envolvi profundamente com a dor do outro (minha própria dor?!). Os relatos, os olhares, os pedidos… tudo nestas crianças deve remeter ao meu próprio abandono! Não por ter sido abandonada pela minha família, eles sempre foram muito amorosos. Falo do abandono de todos nós, da terrível e dolorosa descoberta que todos fazemos um dia: somos sozinhos!

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Mary e Max – Um filme sobre diferentes

06/05/2010

A animação “Mary e Max – Uma Amizade Diferente” do premiado diretor australiano Adam Elliot surpreende por sua forma singela e muitas vezes engraçada em abordar temas profundos e doloridos.

Adam Elliot, diretor de curtas de animação muito conhecido por aficcionados no gênero, usou sua própria história para escrever o roteiro desta belíssima animação que fala sobre amizade, diferenças, solidão, autismo, obesidade, amor e outros tantos temas que nos são tão conhecidos, mesmo que façamos parte do grupo dos “normais”.

O filme conta a história de Mary (menina australiana que no começo do filme tem 8 anos) e  Max (judeu quarentão que mora em Nova Iorque) através da sua longa amizade que se dá pela troca de cartas e presentes. Em tempos de internet e comunicação instantânea é estranho observamos pessoas escrevendo cartas e esperando dias por respostas. Assim Mary e Max passam dias e contam suas vidas e experiências.

Max tem Síndrome de Asperger, é obeso, solitário e estranho ao mundo que também não consegue decifrar. Mary é solitária, sonhadora, tem uma família estranha, sofre bulling e tem muitas perguntas na sua cabecinha infantil.

Além do filme nos fazer pensar nas diferenças que não conseguimos conviver, nos faz refletir também sobre nossas estranhezas e no quanto existe de singular e interessante nas pequenas coisas que nos rodeiam, detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Tudo é poeticamente vivido e mostrado no filme.

Pessoas a quem falta muito, principalmente uma amizade, costumam perceber cada detalhe do mundo que as cerca.

Este filme singular mostra o quanto de extraordinário pode haver no ordinário do cotidiano.

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A vida que espera sob os escombros

20/01/2010

Sim, tenho certeza: a vida nunca para de sonhar e sob os escombros há sim muita vida!

Vida que se perde diariamente sob destroços dos terremotos, vida que míngua escondida embaixo de tanta dor! Dor física, dor emocional.

Será que é mais fácil aceitar a perda quando temos a certeza de que nada pudemos fazer por aquela vida? E quando os destroços são pesados demais? Quando não conseguimos levantá-los para que vidas ressurjam? Esta é a dor aliada à impotência.

Dor de ver quem tão pouco já tinha, perder a esperança, os amores, as lembranças. Dor que lascina, dor que não se mensura.

Ver vigas, vergalhões, paredes… Tudo destruição! Tudo pesado demais! E muita vida pulsando e tentando emergir. Muita vida minguando!

Há vidas que minguam sob vigas de dor e amargura. Há vidas que submergem num lamaçal de angústia e nós, impotentes, nada podemos fazer!

“Existirmos: a que será que se destina?”

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Tá lá, caído no chão

06/08/2009

Da mãe agora se sabe: “polícia encontra corpo”.

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Não é paz, é medo!

06/08/2009

Estou chocada! E assustadíssima!

Hoje, na avenida Tancredo Neves, exatamente no local onde trabalho e circulo todos os dias, uma mulher foi levada por bandidos. Junto com ela, dormindo na cadeirinha do banco de trás do seu veículo, sua filhinha de um aninho.

O veículo ficou sem gasolina na BR 324, os bandidos levaram a mulher e deixaram a criança no veículo.

O veículo foi encontrado por policiais e a garotinha, em sua inocência infantil, continuava dormindo em sua cadeirinha.

Os policiais localizaram o pai da criança que rapidamente foi ao seu encontro.

Da mãe nada se sabe.

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I Dreamed a Dream

25/04/2009

A coragem de ser e jogar na cara de todos as nossas diferenças é rara.

Vivemos num mundo padronizado, bem próximo ao “admirável mundo novo” de Huxley. Olhamos em volta e nos deparamos com exércitos de loiras de cabelos lisos. A idade, cor, raça, origem? Impossível adivinhar! Esquecemos que o que nos torna especiais é o que temos de único.

Susan Boyle tentou (e conseguiu) remexer os seus quadris para manter o mesmo ar debochado de tantos outros que ocupam aquele espaço. Tentou com aquele gesto parecer mais jovem,  portanto mais aceita, que o seu corpinho de 47 anos teimava em denunciar.

Esta é uma sociedade da embalagem, onde Priscilas só têm espaço na cama de homens endinheirados e sedentos de sexo descompromissado e Susans em aldeias interioranas, cuidando dos afazeres domésticos.

Ambas mostraram seu valor no espaço que, aparentemente, só queria padronizá-las. A tv tem programas débeis porque a sociedade que a consome é imbecil ou a sociedade é débil porque a tv é imbecil? Ou nenhuma das anteriores?

Susan Boyle emocionou com sua voz e belíssima interpretação de “I dreamed a dream”, Priscila surpreendeu com sua mente organizada e enorme coração.

Susan Boyle queria apenas mostrar seu estupendo talento vocal. A tv queria apenas mostar as grossas pernas e o enorme bumbum de Priscila. Susan conseguiu, Priscila conseguiu muito mais do que a tv se propôs! Priscila foi mais que formas arrendondadas e fartas.

Susan foi rápida, em minutos mostrou aos britânicos (e ao mundo) que, antes de julgá-la, fechassem os olhos e apenas a escutassem. Priscila precisou de mais tempo para mostrar o quanto de bom escondia embaixo da bela estampa.

Quanto de nós fica escondido porque o mundo só quer ver o que lhe interessa? Narciso acha feio o que não é espelho? Acho que a maioria de nós acredita que sim e tenta se tornar espelho para o mundo: sou o que você espera que eu seja. Passamos horas torrando em fornos como aqueles galetos que giram nas conhecidas “televisão de cachorro”. E saímos dali realmente parecidas com aqueles tenros galetos. Ou melhor, nada tenras, porque precisamos ser esguias e mostrar ao mundo que controlamos nossos impulsos “primitivos”. Se o nosso prato contiver mais que alface e peixe grelhado, mostraremos a todos que escorregamos na tentação e seremos penalizadas com muitos centímetros a mais nas nossas cinturas e não caberemos em nenhum jeans das monumentais vitines das lojas dos shoppings centers.

Susan caiu em muitas tentações, seu corpo a desnuda.

Como Susan ainda pode acreditar num sonho? Sonhar um sonho? Ela não é mais uma jovem! Apenas aos jovens é dado o fantástico mundo dos sonhos! Mas Susan sonhou e ousou esfregar na cara do mundo que além de “coroa”, gordinha, papuda e nada “fashion”, tem uma voz e sensibilidade para interpretação musical que, pasmem, deixou o mundo de boca aberta e de pé! O mundo aplaude Susan Boyle de pé!

Susan não fez nada além do que se propôs: ela queria cantar como Elaine Page e, magistralmente, entoou seu sonho. Mas as  pessoas entraram em um encatamento mágico, elas não esperavam por aquilo. Nada se espera de uma “coroa”, gordinha, papuda e nada “fashion”. O mundo reservado para Susan são as aldeias interioranas, onde ela deveraria, diariamente, cumprir seus afazeres domésticos.

As lindas Priscilas e as desajeitadas Susans sofrem com o mesmo mal.

Não acho que destes episódios necessitamos tirar alguma “lição de moral”. Não partirei para este lado da moral pública e grupal. Acho que necessitamos apenas seu únicos. Carecemos apenas ser nós mesmos!

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