Da mãe agora se sabe: “polícia encontra corpo”.
Arquivo da categoria ‘Criaturas Que O Mundo Esqueceu’

Não é paz, é medo!
06/08/2009Estou chocada! E assustadíssima!
Hoje, na avenida Tancredo Neves, exatamente no local onde trabalho e circulo todos os dias, uma mulher foi levada por bandidos. Junto com ela, dormindo na cadeirinha do banco de trás do seu veículo, sua filhinha de um aninho.
O veículo ficou sem gasolina na BR 324, os bandidos levaram a mulher e deixaram a criança no veículo.
O veículo foi encontrado por policiais e a garotinha, em sua inocência infantil, continuava dormindo em sua cadeirinha.
Os policiais localizaram o pai da criança que rapidamente foi ao seu encontro.
Da mãe nada se sabe.

I Dreamed a Dream
25/04/2009A coragem de ser e jogar na cara de todos as nossas diferenças é rara.
Vivemos num mundo padronizado, bem próximo ao “admirável mundo novo” de Huxley. Olhamos em volta e nos deparamos com exércitos de loiras de cabelos lisos. A idade, cor, raça, origem? Impossível adivinhar! Esquecemos que o que nos torna especiais é o que temos de único.
Susan Boyle tentou (e conseguiu) remexer os seus quadris para manter o mesmo ar debochado de tantos outros que ocupam aquele espaço. Tentou com aquele gesto parecer mais jovem, portanto mais aceita, que o seu corpinho de 47 anos teimava em denunciar.
Esta é uma sociedade da embalagem, onde Priscilas só têm espaço na cama de homens endinheirados e sedentos de sexo descompromissado e Susans em aldeias interioranas, cuidando dos afazeres domésticos.
Ambas mostraram seu valor no espaço que, aparentemente, só queria padronizá-las. A tv tem programas débeis porque a sociedade que a consome é imbecil ou a sociedade é débil porque a tv é imbecil? Ou nenhuma das anteriores?
Susan Boyle emocionou com sua voz e belíssima interpretação de “I dreamed a dream”, Priscila surpreendeu com sua mente organizada e enorme coração.
Susan Boyle queria apenas mostrar seu estupendo talento vocal. A tv queria apenas mostar as grossas pernas e o enorme bumbum de Priscila. Susan conseguiu, Priscila conseguiu muito mais do que a tv se propôs! Priscila foi mais que formas arrendondadas e fartas.
Susan foi rápida, em minutos mostrou aos britânicos (e ao mundo) que, antes de julgá-la, fechassem os olhos e apenas a escutassem. Priscila precisou de mais tempo para mostrar o quanto de bom escondia embaixo da bela estampa.
Quanto de nós fica escondido porque o mundo só quer ver o que lhe interessa? Narciso acha feio o que não é espelho? Acho que a maioria de nós acredita que sim e tenta se tornar espelho para o mundo: sou o que você espera que eu seja. Passamos horas torrando em fornos como aqueles galetos que giram nas conhecidas “televisão de cachorro”. E saímos dali realmente parecidas com aqueles tenros galetos. Ou melhor, nada tenras, porque precisamos ser esguias e mostrar ao mundo que controlamos nossos impulsos “primitivos”. Se o nosso prato contiver mais que alface e peixe grelhado, mostraremos a todos que escorregamos na tentação e seremos penalizadas com muitos centímetros a mais nas nossas cinturas e não caberemos em nenhum jeans das monumentais vitines das lojas dos shoppings centers.
Susan caiu em muitas tentações, seu corpo a desnuda.
Como Susan ainda pode acreditar num sonho? Sonhar um sonho? Ela não é mais uma jovem! Apenas aos jovens é dado o fantástico mundo dos sonhos! Mas Susan sonhou e ousou esfregar na cara do mundo que além de “coroa”, gordinha, papuda e nada “fashion”, tem uma voz e sensibilidade para interpretação musical que, pasmem, deixou o mundo de boca aberta e de pé! O mundo aplaude Susan Boyle de pé!
Susan não fez nada além do que se propôs: ela queria cantar como Elaine Page e, magistralmente, entoou seu sonho. Mas as pessoas entraram em um encatamento mágico, elas não esperavam por aquilo. Nada se espera de uma “coroa”, gordinha, papuda e nada “fashion”. O mundo reservado para Susan são as aldeias interioranas, onde ela deveraria, diariamente, cumprir seus afazeres domésticos.
As lindas Priscilas e as desajeitadas Susans sofrem com o mesmo mal.
Não acho que destes episódios necessitamos tirar alguma “lição de moral”. Não partirei para este lado da moral pública e grupal. Acho que necessitamos apenas seu únicos. Carecemos apenas ser nós mesmos!

Meu Mundo Caiu
29/10/2007O lugar pode ser considerado bairro de elite. A padaria, ou melhor, “delicatessen”, é frequentada por famílias endinheiradas com crianças rosadas e coloridas, casais com suas griffes da moda, senhores e senhoras com ar distinto, jovens sorridentes e barulhentos e mais alguns tipos que compõem o “nosso mundo”.
Na porta um vigilante. Nas imediações muita gente circulando.
Estacionamento? Na porta, claro! Ou chaves na mão do manobrista.
Tudo parecia muito tranquilo e seguro para uma mulher sozinha fazer algumas compras emergenciais.
Na saída, um olhar rápido para o vigilante que conversava animadamente com um cliente. Alguns passos até o carro, o barulhinho do alarme avisando que o acesso ao interior do veículo estava liberado e, como sempre, um olhar em volta como se pressentisse o perigo. Ponto de ônibus? Parecia. Algumas pessoas estavam próximas e aguardavam. Alguém caminha na minha direção. Não, não há perigo, ele pertence ao “meu mundo”.
Se aproximou como se fôssemos velhos conhecidos, pediu para que eu ficasse calma e que não iria me machucar. A abordagem foi tão amigável, que, por segundos, tive a sensação que ele me daria dois beijinhos no rosto. Não houve beijos, mas ele se comportava como se me conhecesse, apesar de ter me mostrado, em sua cintura, um revólver que me fez estremecer inteira.
Fui tirando minha bolsa do ombro num gesto que se assemelhava a um reflexo. Ele, rapidamente, me disse com um leve sorriso nos lábios: não quero sua bolsa, ela é muito grande. Juro que senti vontade de rir, apesar da tensão que o objeto brilhante na sua cintura me causava. Naquele momento parecíamos tão próximos! Mas, afinal de contas, ele tem cara de que pertence ao “meu mundo”.
Sem irritação e com bastante calma, me pediu que abrisse a bolsa e fosse tirando os objetos. Na sua mão, uma sacola pequena. Boticário? Não me lembro. Mas sei que a sacola também pertencia ao “meu mundo”. Muitas bugigangas foram tiradas e recolocadas. A carteira: “apenas o dinheiro”. Tirei todo o dinheiro; R$ 122,30. No meio de papéis amassados, um talão de vale refeição, este ele aceitou. Uma HP, minha inseparável HP. Dois celulares. Dois?!?!? Sim, dois aparelhos, com seus chips e as preciosas informações que eles contêm. “Bonito seu relógio”. Era a senha. Lá se foi um dos queridos da minha coleção. Ele colocou a mão dentro da minha bolsa e foi pegando coisas: batom (devolveu), mais batons (devolveu), gloss (devolveu), agenda, post-it, pente, espelho, hidratante para as mãos, fio dental, remédio… Tudo recolocado na bolsa, no seu devido lugar, ou melhor, na sua incomparável bagunça.
Pediu que eu entrasse no carro e saísse. Não falasse com ninguém e fosse rapidamente para longe dali. Fiz isso e não sei o rumo que tomou o tal rapaz.
Não era um rapaz que me fizesse sentir pena (como aconteceu com o apresentador Hulk e seu Rolex), até o medo que a situação costuma provocar era menor do que das outras vezes. Afinal de contas o “deliquente” parecia pertencer ao “meu mundo”.
Costumo dizer que sou contra a pena de morte porque algumas pessoas já nascem condenadas à morte. Nascem sem esperança e sem expectativa.
Mas não somos todos condenados? Qual será a tênue linha que separa o “meu mundo” dos “outros mundos”?
Agora me pergunto: de que mundo sou?