
Ela subitamente parou e olhou-se no espelho: quem era aquela mulher refletida? Não reconhecia!
Bastaram alguns dias para que sua vida desse tal reviravolta, que nem o seu rosto era mais o mesmo. Não havia mais o olhar inocente e compreensivo. Esvaíra-se o olhar bondoso e complacente com o outro.
Seu corpo em riste parecia pronto para um bote inesperado, a impressão era que aguardava iminente ataque. Seu olhar era como o de um felino em plena caça: concentrado, compenetrado, profundo, em alerta!
Sabia que nunca mais voltaria ao ponto incicial.
-Nunca mais!
-Nunca mais!
-Nunca mais!
Estas palavras vibravam em sua cabeça como o tilintar do sino da missa das seis da sua distante Itagi. Era hipnotizante.
O ruído do sino doía em sua alma como se a cortasse em pedaços tão pequenos que mal daria para enxergá-los. Nano pedaços.
Nunca mais teria o que teve antes. Nunca mais a crença infantil, o doar sem barreiras, a entrega total. Nunca mais um amor sem reservas.
Sentia que nascera dela uma outra. Melhor? Pior? Diferente.
Uma outra que jamais permitirá o abandono, as conversas cortadas, o desabafo rejeitado, a súplica surda!
A dor não a judiava, mas a raiva a matava!
Como permitira? Como se deixara levar por infame mentira? Como deu-se tão inocentemente sem reservas?
Havia TUDO sido uma grande mentira. Mais de mil dias de MENTIRA!
E pensar que chegou a pedir desculpas por ter sido usada, abusada, enganada, magoada… Quanta bondade havia em seu coração de outrora!
Outrora, quando eram inocentes os seus olhos, quando era sem reserva o seu amor, quando o castelinho de fadas ainda a acolhia. Agora, aquela refletida no espelho perecia cuspir pelos olhos palavras ácidas e perfurantes.
O que tinham reservado para ela era por demais cruel. Ela sabe que não merecia, sabe que não merecia…
Mas agora acabou-se. Foi-lhe retirado o castelinho, o mundo caiu, os muros desabaram e ela ouviu e viu toda a verdade que lhe haviam negado por tanto tempo! Quanta crueldade Deus!
Não há o que entender, não há o que perdoar, nada a relevar. Há apenas um ódio profundo. Ódio que substituiu a surpresa e dor da revelação. Nada pior acontecera em sua vida, nem a mais vil criatura fora capaz de tamanha baixeza. Ela jamais poderia supor que passaria por algo de tamanha sordidez. Já não tinha tanta certeza da necessidade de poupar aquele ser que, agora para ela, rasteja como um réptil nojento pelos infernos das compulsões. Ela não matará a si para poupá-lo. NUNCA!
Mas há também a sua insuperável pulsão de vida, seu inesgotável poder de recuperação e sua incrível vontade de recomeçar.
É a vida se reinventado.


