Ele chegou cedo e ela era muito jovem para percebê-lo. Tão linda, tão frágil, tão jovem! Necessitava visceralmente dele e sequer se dava conta. Não o olhou nos olhos, aliás, não notou a sua presença.
Vinha de uma perda recente e não acreditava que ele chegaria algum dia. Será que acreditava na sua existência?
Mas… Será que alguém é tão jovem que não reconheça o amor? Claro que não! Ela era, não apenas jovem, cética! Sim, muito jovem, muito linda, muito só e cética!
Ele veio embalado num pacote pequeno, bonito e de riso franco. Esta embalagem acompanhou-a parte da sua vida e ainda a acompanha, agora apenas em suas mais doces recordações.
Minho era como ela o chamava. Tão jovem, tão puro, tão virgem! Tão dela, totalmente impregnado em seu ser.
Mas ela era cética, não se esqueça.
Foi num festivo e ensolarado dia interiorano que ela o conheceu: branquinho, baixinho, dentes grandes e riso enorme. Era ele o primo que ela tanto ouvira falar? Sim, era ele. Ele pareceu-lhe tão normal, tão comum! Mas por que nunca saiu da sua memória a primeira vez que o viu? Se foi tão comum, por que pode agora fechar os olhos e enxergar o mesmo rosto de remotos anos 80? Que menina boba! Não percebeu! Demorou décadas para enxergar que ali estava o amor da sua vida.
Passaram dias carnavalescos como amigos. Existia outro e ela se dizia apaixonada.
Ao término daquele carnaval interiorano, voltaram juntos e sozinhos. Ela dormiu em seu ombro e ele cuidou dela. Nunca cuidaram dela daquela forma, com tamanho aconchego.
Ao regressarem já não eram mais os mesmos. O flerte prosseguia gostoso e crescente. Mas existia outro e ela se dizia apaixonada.
Um dia ela se tornou mulher nos braços do outro, que pensava apaixonada. Falou para ele. Por que falou? Porque já não podia mais viver sem ele e sem o seu olhar. Deve ter doído nele, deve ter doído demais! Mas ele se fez amigo e forte e prosseguiram quase amigos, quase amores.
O flerte cresceu e na contramão do outro, aquele que ela se dizia apaixonada, Minho tomou o seu lugar. Mas não foi assim tão fácil e simples. Ela se sentia apaixonada e fechou seu coração para o amor. O amor que estava ali, ao seu lado.
Quando estava com Minho sentia vontade que o mundo parasse. Quando não estava com ele, fechava os olhos e sentia uma imensa alegria invadir sua alma. Era feliz apenas porque Minho existia e era dela e ela dele. Mas, mesmo assim, não acreditou que fosse amor.
Viveram algum tempo juntos. Tempos felizes demais! Ela, muito jovem, imaginava que assim era vida. O normal era ser feliz, portanto aquele sentimento não era originário do amor. Que boba!
Queria-o demais, mais tinha-o tão para si que não se dava conta do quanto ele era importante, fundamental!
Minho encheu os seus dias de alegria e o seu corpo de vida. Vida que não prosseguiu.
Deixou-o escorrer pela vida.
Foi viver outros amores. Pseudo amores.
Depois de muito tentar e pouco sentir, foi invadida, tomada por uma certeza: ela o amava profundamente!
Nunca mais sentiu aquela paz que sentia ao lado dele. Nunca mais desejou um homem como desejou o seu Minho. E a tal felicidade, que ela achava que era ingrediente da vida, minguou. Nenhum homem a fez sentir o que seu Minho, apenas com um olhar, fazia.
Minho agora está guardado na sua caixinha verde amarelada (ou amarela esverdeada?) junto com as demais recordações da sua vida. Mas ela sabe que ele está totalmente apartado de todas as outras. Minho é único!