Tudo em volta é caos e escuridão. Tristeza só!
Por isso não venha com sua dor, não há espaço para ela.
Mais uma vez sozinha… Escolhera viver só, afastava-se das pessoas para não viciar nelas. Nunca as procurava, mas vez ou outra alguns desavisados apareciam ou pelo menos tentavam aparecer e permanecer na sua vida.
Nunca olhava nos olhos, um olhar poderia aprisioná-la, além de doar muito de si quando fitava. Muita verdade transbordava dos seus olhos arredios.
Convivia durante a semana. Esforçava-se para parecer normal e convencia. Nos finais de semana enclausurava-se na sua torre caótica. Por isso era tão fissurada em torres e loucos… Era a própria representação dela. Ela, a Ismália da torre de Alphonsus.
O final de semana passava arrastado entre sono, sonhos e delícias calóricas. Empaturrava-se para não enxergar o seu vazio.
Arredia, muitas vezes desligava telefones e nem luzes acendia; era como se não estivesse ali. E estava! Inteira, soterrada! Quando permanecia de alguma forma conectada ao exterior, como que pedindo socorro, assustava-se com o toque neurótico do telefone. Olhava para o aparelho com o toque estridente decidindo se iria atendê-lo e, caso atendesse, qual desculpa daria para manter-se intacta na torre, sem a contaminação da pseudo alegria dos jovens barulhentos e embriagados.
Detestava a alegria desmedida e a felicidade a qualquer preço. Por ela, nada pagava. Já pagou caro e convenceu-se que ela não há.
Em finais de semana de euforia (a este nome dava a sensação de poder levantar-se, banhar-se e vestir-se), calçava tênis (odeia tênis e amarrar cadarços) e tentava encarar os dias ensolarados da cidade que escolheram para ela.
Munia-se de enormes óculos escuros, a luminosidade nocauteava-a, era impossível abrir os olhos sem a proteção de lentes muito escuras.
Andava a esmo por horas a fio buscando a exaustão. Nestas horas, muito mais do que suas pernas, seu cérebro funcionava a mil. Tudo via e sobre tudo refletia. Paisagens desoladas e pessoas patéticas. As pessoas são realmente patéticas quando olhadas de perto, principalmente quando não sabem que são observadas, quando não representam o papel de agradar ou, como alguns jovens rebeldes, desagradar.
Tentava olhar a cidade por algum ângulo nunca dantes observado. Tentava capturar algo de belo para reter nas suas retinas e levar como companhia por alguns dias em que arrastaria-se nauseabunda.
Nada ao redor encantava-a e sabia que mesmo viajando quilômetros, conhecendo os mais diversos países, culturas e seres, jamais seria surpreendida por um fascínio qualquer. Pobre humanidade! As pessoas… Tão demasiado humanas!
Atravessava o sem sentido da vida sem os porres dos artistas e a contemplação dos filósofos. Sabia-se só. Uma ermitã na multidão das grandes cidades. Vivia para ver o correr dos ponteiros, esperando que acelerassem.
Adora o início do horário de verão, quando os relógios são adiantados em uma hora, deprimia-se com o fim dele. Uma hora a mais era muito para suportar no insuportável do existir.
Em raríssimas ocasiões torceu para que as horas passassem lentamente. Talvez apenas nos momentos em que precisava cumprir uma tarefa mais longa do que o tempo disponível. Decepcionava-se quando olhava o relógio e descobria que o tempo decorrido era menor do que imaginava. Adorava acordar e perceber que tinha dormido muito, que muito tempo havia passado. Nem quando ainda muito jovem, achava dormir uma perda de tempo. Este era o melhor momento da vida, era quando o relógio saltava, nestes momentos em que ensaiava a morte.
Nada esperava, nem mesmo a morte. Apesar de deprimida, jamais seria uma suicida, nem mesmo a morte causava-lhe alguma expectativa. Não a ansiava e nem a temia…
E nem venha com suas teorias do amor como sentido para a vida. Ela já tentara! Ah, tentara muitas vezes! Jamais foi arrebatada por uma paixão que fizesse tudo isso valer a pena.
Sem esperança, anseio ou desejos. Vivia apenas. Como a esperar o dia em que fecharia os olhos e nunca mais voltaria a abri-los.






