Arquivo da categoria ‘Estranhos são os outros’

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A Vida Real

30/09/2009

Eu quero meu castelinho de fadas.

Não, por favor, não me deixe aqui fora solta no mundo.

Solta, só e olhando as feras

Aqui está cheio delas

E são tão perigosas

Não, por favor, deixe-me voltar ao meu castelinho

Não tenho forças para enfrentar feras

Não dê-me espelhos

Não dê-me sinais

Não me deixe intuir

Não quero enxergar as feras

Sequer saber que elas existem

As minhas, espantando-me

As suas, machucando-me

O mundo repleto delas e eu aterrorizada com esta revelação

Deixe-me só, para sempre só

Protegida no meu castelinho de fadas

a pensar que “0 mundo é perfeito e todas as pessoas são felizes”

ou seria: todas as pessoas são perfeitas e o mundo é feliz?

Proteja-me Deus!

Faz-me esquecer estas 8 horas em claro

Lúcida

Louca

Retira-me estas 8 horas e suas vis revelações

Vis constatações

MINHAS VIS CONSTATAÇÕES

Agora não dá mais para voltar

Sair do castelinho de fadas é como comer a maçã e deixar o paraíso

e se esconder com uma folha de parreira

esconder seu sexo

esconder suas taras

esconder sua escondida sexualidade

E passar o resto dos dias lutando contra as feras

Todas aquelas que devoram os meus dejesos

Todas aquelas que devoram o seu desejo, que o fazem sucumbir!

Sucumbimos sempre!

Não tenho mais meu castelinho de fadas, ele desmoronou!

E agora, onde vou me acolher?

E agora, como continuar acreditando  no outro?

Na sanidade?

Como acreditar num mundo sem desvios?

Como acreditar que, fora do castelinho de fadas, há vida em abundância?

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Me arrebatou!

27/07/2009

Não resisti! Já marquei test drive!

Breve estarei desfilando nesta “LINDEZA”!

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O novo Soul da Kia

25/07/2009

Kia Soul

A  PAI  XO  NEI !!!!!!!!!!!

Quero um…………

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Endless Love

20/04/2009

Minha era como ele a chamava. Tão dele! Queria-a só para si.

Ele era jovem, tímido, inteligente e virgem.

Sua Minha era jovem, mas não tanto quanto ele, e totalmente entregue à vida e aos prazeres por ela proporcionados.

Uma jovial e reluzente estudante de arquitetura. A mais bela da sala, a mais linda de toda a faculdade!

A história deles foi sendo construída lentamente. Minha entrara na sua vida de forma tão inesperada que, no início, ele se esforçou para dela nada esperar. Muito cheia de vida e energia aquela iluminada e roliça garota.

Mas ela foi se chegando de mansinho e quebrando a sua timidez. Minha era direta e deixava-o rubro muitas vezes. Mas fazia-o de forma tão encantadora que ele apenas admirava!

Um dia, Minha, ainda não totalmente dele, acordou-o com gritos e balanços felizes; ela trazia uma notícia muito aguardada: ele agora era universitário do curso de Engenharia Química da Universidade Federal da Bahia! Sua Minha ali, debruçada sobre ele, olhos quase saltando de tão satisfeitos, falava numa velocidade  que seu cérebro sonolento não conseguia captar. Mas fingia entender e ia admirando aquela beleza que jorrava, borbulhava, transbordava da sua Minha. Enfim entendeu e se entregou àquela onda de alegria. Não sabia se sua felicidade era maior porque havia vencido uma difícil batalha ou porque sua Minha era a mensageira da boa notícia.

A vida foi seguindo e o jovem enamorado foi se enchendo de paixão pela alegre Minha. Sua Minha vivia dentro e acima desle. Sim, ela era sua vizinha do andar imediatamente superior. Amiga de todos naquele espaço, possuía trânsito livre na sua casa e no seu coração. Minha foi ocupando espaços e trouxe vida e alegria ao seu dia-a-dia.

Aquele primeiro amor desvirginou-o. Seu corpo e coração foram entregues àquela vibrante aspirante a arquiteta.

Às vezes era totalmente dele, outras escorregava e ia viver amores nos quais, com certeza, ela não acreditava. Mas, certamente,  precisava fugir dele e daquele amor sem fim! Mas não fazia-o de forma consciente; Minha, provavelmente, não se deixava dar conta do tamanho daquele amor.

Entre idas, vindas, brigas e emoções, passaram-se os anos.

Minha abrigou seu inquieto e inseguro coração em ninho que julgava mais firme. Que boba a Minha dele! O que existe de mais firme que um amor sem fim?

Ele jamais perdoou-a por não ter participado da coroação do seu sucesso. Ela, que havia sido mensageira da primeira vitória, não participou do ápice da coroação.

Não deixou-a falar, afastou-a da sua vida e foi viver muito longe da sua Minha e do seu imenso amor.

Muito se passou…

“Amores” foram construídos e destruídos e nunca mais olhou outra vez nos olhos do seu amor.

Hoje, a quem pertencerá a sua Minha?

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O Maior Amor do Mundo

08/04/2009

Ele chegou cedo e ela era muito jovem para percebê-lo. Tão linda, tão frágil, tão jovem! Necessitava visceralmente dele e sequer se dava conta. Não o olhou nos olhos, aliás, não notou a sua presença.

Vinha de uma perda recente e não acreditava que ele chegaria algum dia. Será que acreditava na sua existência?

Mas… Será que alguém é tão jovem que não reconheça o amor? Claro que não! Ela era, não apenas jovem, cética! Sim, muito jovem, muito linda, muito só e cética!

Ele veio embalado num pacote pequeno, bonito e de riso franco. Esta embalagem acompanhou-a parte da sua vida e ainda a acompanha, agora apenas em suas mais doces recordações.

Minho era como ela o chamava. Tão jovem, tão puro, tão virgem! Tão dela, totalmente impregnado em seu ser.

Mas ela era cética, não se esqueça.

 Foi num festivo e ensolarado dia interiorano que ela o conheceu: branquinho, baixinho, dentes grandes e riso enorme. Era ele o primo que ela tanto ouvira falar? Sim, era ele. Ele pareceu-lhe tão normal, tão comum! Mas por que nunca saiu da sua memória a primeira vez que o viu? Se foi tão comum, por que pode agora fechar os olhos e enxergar o mesmo rosto de remotos anos 80? Que menina boba! Não percebeu! Demorou décadas para enxergar que ali estava o amor da sua vida. 

Passaram dias carnavalescos como amigos. Existia outro e ela se dizia apaixonada.

Ao término daquele carnaval interiorano, voltaram juntos e sozinhos. Ela dormiu em seu ombro e ele cuidou dela. Nunca cuidaram dela daquela forma, com tamanho aconchego.

Ao regressarem já não eram mais os mesmos. O flerte prosseguia gostoso e crescente. Mas existia outro e ela se dizia apaixonada.

Um dia ela se tornou mulher nos braços do outro, que pensava apaixonada. Falou para ele. Por que falou? Porque já não podia mais viver sem ele e sem o seu olhar. Deve ter doído nele, deve ter doído demais! Mas ele se fez amigo e forte e prosseguiram quase amigos, quase amores.

O flerte cresceu e na contramão do outro, aquele que ela se dizia apaixonada, Minho tomou o seu lugar. Mas não foi assim tão fácil e simples. Ela se sentia apaixonada e fechou seu coração para o amor. O amor que estava ali, ao seu lado.

Quando estava com Minho sentia vontade que o mundo parasse. Quando não estava com ele, fechava os olhos e sentia uma imensa alegria invadir sua alma. Era feliz apenas porque Minho existia e era dela e ela dele. Mas, mesmo assim, não acreditou que fosse amor.

Viveram algum tempo juntos. Tempos felizes demais! Ela, muito jovem, imaginava que assim era vida. O normal era ser feliz, portanto aquele sentimento não era originário do amor. Que boba!

Queria-o demais, mais tinha-o tão para si que não se dava conta do quanto ele era importante, fundamental!

Minho encheu os seus dias de alegria e o seu corpo de vida. Vida que não prosseguiu.

Deixou-o escorrer pela vida.

Foi viver outros amores. Pseudo amores.

Depois de muito tentar e pouco sentir, foi invadida, tomada por uma certeza: ela o amava profundamente!

Nunca mais sentiu aquela paz que sentia ao lado dele. Nunca mais desejou um homem como desejou o seu Minho. E a tal felicidade, que ela achava que era ingrediente da vida, minguou. Nenhum homem a fez sentir o que seu Minho, apenas com um olhar, fazia.

Minho agora está guardado na sua caixinha verde amarelada (ou amarela esverdeada?) junto com as demais recordações da sua vida. Mas ela sabe que ele está totalmente apartado de todas as outras. Minho é único!

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Cucos Cantantes

24/04/2008

relogio-cucoEla estava sentada naquele canto oblíquo há horas. Os tic tacs se misturavam na sua cabeça. Seu mundo era apenas um recorte assimétrico daquela sala poluída. No seu mundo apenas uma cadeira colorida com fotografias dos seus filmes preferidos e, em cima dela, uma caixa. A caixa. Verde? Amarela? Amarela esverdeada talvez. Que importância teria a cor daquele objeto? Verdes e amarelos, diversos na paleta, se misturavam atrás dos seus olhos. Lá detrás, no local onde moram as lembranças.

Os passeios cantantes do cuco acima da sua cabeça não eram suficientes para reviver todos os quilômetros percorridos até o momento em que se deteve diante da caixa verde amarelada. Prostada, hipnotizada, patética! Tentando lembrar (ou não lembrar?) dos momentos aprisionados no objeto de cores diversas.

Por que devolvemos a alguém a vida vivida? Como ousamos aprisionar numa caixa amarela (ou verde?) sentimentos partilhados e momentos de dor e amor? Como aquela caixa chegou ali?

Seu estado de prostação era tal que, mesmo nos momentos em que as doces recordações enchiam aquela caixa dos verdes dos parques onde tantas vezes rolaram na relva sob um sol amarelo de doer olhinhos felizes e brilhantes, era-lhe impossível mover os braços para tocar o objeto. Algumas lembranças eram capazes de crispar todo o seu corpo e deixá-la ainda mais longe do receptáculo que as continha.

Por vezes, tentava estender os braços e tocar aquele mundo que lhe pertenceu até tão pouco, até horas atrás. Quantas? Não tinha mais noção de quantos passeios cantantes o cuco, acima da sua cabeça, havia feito desde que se sentara no oblíquo da sala, a mirar a caixa e divagar.

A vida se faz e desfaz em rápidos passeios dos cuocos e tudo que vivemos pode ser acondiocionado em uma caixa onde caberia um par de sapatos, apenas um. Não importa o tamanho da dor, vivida ou na iminência de: a caixa sempre será menor do que gostaríamos que fosse.

Não mais que dois palmos a separavam da colorida e cinéfila cadeira, mas o peso dos seus braços impedia que alcançasse e resgatasse as cores das suas lembraças. As cores que antes lhe pareceram tão fortes, começavam a esmaecer. Reviver o que aquela caixa acondicionava com tanta graça, trouxe-lhe sentimentos tão fortes e díspares, que parecia-lhe ter vivido a intensidade de toda uma vida em alguns passeios cantantes do cuco acima da sua cabeça.

Detinha-se agora a tentar adivinhar o conteúdo de tão graciosa caixa.

De repente uma voz a resgasta das suas profundas recordações: “você desagua em mim e eu oceano”… Percebeu que o mundo era maior que o canto oblíquo com uma cadeira colorida e a caixa verde amarelada.

Desaguou e passou a ver os outros cantos oblíquos e ouvir os demais sons que a circundavam. Buzinas e vozes invadiam a sala. Eram 18:10 e a escola que ficava ao lado abria as portas para que as crianças, apressadas, pudessem ir ao encontro da sua liberdade infantil.

Sentiu naquele momento que a caixa estava no passado, não muito distante, mas inatingível. Seu presente era a algazarra feliz dos pequenos e as buzinas nervosas dos pais. Seu presente era um imenso vazio e a voz: “esqueço que amar é quase uma dor…”.