
Ainda bem jovem, li uma frase num livro que à primeira vista me pareceu sem sentido: “Quando a gente anda sempre para frente, não se pode ir mesmo longe” *. Como assim? Quem anda para frente vai longe, pensava.
Refleti muito sobre a frase, consegui entendê-la e passei a concordar inteiramente com ela. Para crescermos é necessário que enfrentemos a vida e que tomemos decisões a cada bifurcação ou mesmo ao longo de estradas retas. Muitas vezes precisamos voltar um pouco (ou muito), fazer rodeios, girar sobre nosso próprio eixo, entrar em picadas que ao final concluímos sem saída, deixar a estrada principal para seguir marjeando-a… Não são apenas retas, são curvas, muitas curvas que fazem nosso caminho.
Decidir e depois mudar é comum e necessário.
Muitas vezes me considero contraditória: Suzana ou Mércia? Não poderia deixar de ser duas uma pessoa com dois nomes próprios tão fortes e tão díspares!
Uma das minhas contradições dizem respeito à tecnologia. Adoro inovações, me curvo a elas, consumo-as, mas vivo me atritando com o novo. Gosto apenas dos benefícios, mas este mundo tecnológico nos trás também muitas perdas. Uma delas é a privacidade (imagina uma blogueira falando em privacidade, que contraditório!). Só que pode parecer mais contraditório do que na verdade é. O que gosto é de poder escolher e desejar. Se faço um blog, optei por isto, vou escrever e colocar na vitrine apenas o que me interessa expor.
O desejo é algo que podemos perder se não ficarmos muito atentos.
Você já parou para imaginar a revolução que é o celular na vida das pessoas? Muitos benefícios, muitos! Poder resolver problemas a qualquer hora, marcar e desmarcar compromissos, encontrar pessoas, saber onde anda seu filho adolescente e outros inúmeros prazeres. Mas este é o seu lado “ligador”, apenas o lado de quem faz a ligação. Já pensou em quem as recebe? E você como recebedor está sempre disposto a apertar aquele botãozinho e atender àquela chamada?
Sem falar que celular é quase como um bip que existia antigamente. Alguns profissionais ficavam bipados e eram pagos por isto. Hoje ficamos bipados 24 horas e “ai de nós” se, por alguns minutos, ficarmos desconectados do mundo!
Mas não ganhar por estas “horas extras” é apenas um pedaço (e pequeno) do problema. O que acho pior é que nos tornamos cada vez mais sujeitos aos desejos do outro, logo, logo, correremos o risco de não mais desejar, o que pode ser mortal. Quantas vezes escolhemos sair para jantar com uma amiga que não encontramos há algum tempo e mal conseguimos conversar porque os telefones não nos deixam prosseguir? A quem estamos satisfazendo nesses momentos? Ao desejo do outro claro! Na maioria das vezes à urgência do outro.
Esta é outra questão: urgência! Não sabemos mais esperar. Queremos ser atendidos naquele momento, sem demora. Onde fica a contemplação, o momento de espera que nos leva a pensar e fantasiar? Tudo isso perdido!
Pensar nestas perdas me leva a desejar morar num cantinho sossegado, onde o tempo passe num ritmo lento e leve, onde celulares não toquem e as notícias cheguem em cartas esperadas e fantasiadas por dias.
Pense que seu sossego pode estar mais perto que este lugar bucólico e rupestre que às vezes povoa meus sonhos. Pode estar a apenas um toque. Sabe o botão on/off?!?! Sim, desligue, ligue-se em você!
*O Pequeno Principe – Antoine Saint-Exupery