Não entendo por que tentamos trazer para o real a matéria dos sonhos, ou mesmo dos devaneios.
Existem paixões que só devem ser sonhadas, o real não a traduziria. Existem sonhos que não caberiam na vida acordada.
Mas não somos só matéria, algo me escapa no momento da definição do ser. Algo que não vejo, não consigo provar, portanto não entendo e busco não acreditar.
Digo que somos energia aprisionada dentro de um corpo, assim como a energia das pilhas alcalinas. A morte é a liberação desta energia, que passará a tomar parte do todo. Não seremos mais um ser pensante, não seremos mais o que conhecemos como ser humano.
Ouvi um monge budista falar sobre uma garrafa cheia de água que segue boiando no oceano. A garrafa tem medo de partir-se. Ou o medo seria da água que está dento da garrafa? Assim nos sentimos em relação à morte, não queremos ser gotas a mais neste oceano, queremos a unicidade da garrafa, a barreira do corpo que aprisiona nossa energia e nos constitui como ser. A quebra da garrafa é equivalente à morte do corpo: a água flui para o oceano, passando a fazer parte daquele todo. Com a morte do corpo a energia liberada se juntará à energia que existe no cosmos e seremos parte deste todo cósmico.
Este é o meu Deus! Um Deus que nada tem de único e especial, que nada criou e nada acabará! Meu Deus é ciência e energia. Meu Deus é lógica e realidade! Sinto-me só sem este Deus que quase todos têm. Sinto-me desamparada sem esta fé que acalma e abranda as dores.
Sou só questionamento: para que serve tudo isto? E sabe o que me respondo? Para nada! Somos apenas composições químicas agrupadas em forma de ser humano, que nomeamos assim. Acabaremos como tudo acaba. Nascemos com prazo de validade e quando ele se extinguir nada mais seremos. Já imaginou a eternidade? Ser nada por toda a eternidade? É muito mais fácil acreditar em Deus!
Mas que pena, nunca trilhei o caminho mais fácil!
Um pouco de Fernando Pessoa para poetizar a dura realidade:
“Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.”



Não, não vou começar uma dieta para emagrecer tudo que me sobra e depois voltar a cair na farra. Não resolvi que vou malhar até cair no chão de cansada e voltar a ficar de pernas para o ar quando as minhas pernas estiverem lisinhas e durinhas.
Quando eu era pequena escutava umas histórias intrigantes e cresci pensando nelas. Uma destas histórias era de pessoas que um dia inventavam uma desculpa qualquer, saíam de casa e desapareciam para sempre. Estranho não? A pessoa ficava farta da própria vida e tinha medo de reinventá-la junto com aquelas pessoas que estavam ao seu redor. Radicalizavam, mudavam tudo. Era parecido com morrer e reviver.
