Você acha que podemos ser maus? Lars Von Trier tem certeza!
AntiCristo, considerado por muitos um filme menor deste genial diretor, é o maior dos maiores. Magistral, fenomenal, visceral!
O filme que em algum momento afirma que os sonhos não importam para a psicologia moderna, que Freud morreu, pode ser totalmente analisado à luz da psicanálise.
Falam que LVT estava em depressão quando fez este filme, acredito! Só alguém completamente atormentado conseguiria descer tão fundo nos porões da nossa psiquê.
Resolvi me despir totalmente para assistir ao espetáculo de Anti Cristo. Entreguei-me de corpo, alma, vísceras, coração, membros para entrar nesta catarse cinematográfica. Todos o meu ser, todos os meus poros, toda a minha alma, a minha consciência e inconsciência se entregaram a este filme.
Jamais tive medo de assistir a um filme, mas sentei-me na cadeira e bastante ansiosa respirei fundo e pedi forças para suportar. O que estava por vir era muito maior, mais forte, mais denso e chocante do que poderia supor.
Foi a mais rica experiência cinéfila que já tive em toda a minha vida. Após o final fiquei paralisada na cadeira e ao me levantar minhas pernas estavam bambas. Todo o meu corpo pulsava com as emoções deste incrível filme.
LVT fala das dores e das mazelas do ser humano. Nunca um autor tinha retratado com tanta clareza nossos porões, o que temos de mais escondido.
No início uma morte e um luto, um luto que se mostra diferente dos demais e demonstra que algo de estranho existe naquele ser que sofre. Nunca devemos duvidar das evidências que nos são mostradas, nunca deveríamos duvidar que aquela mãe sofria não apenas pela morte do filho, mas pela descoberta do ser demoníaco que trazia dentro de si. No primeiro momento apenas a dor. Ao tentar entrar em contato com a dor com a juda do marido terapeuta, ela também entra em contato com seu lado sombra, com seu feminino demoníaco. Alguém não possui? Atire a primeira pedra os que não escondem verdades irreveláveis. Mas existem verdades mais irreveláveis do que outras. Algumas são como tabus, como incesto, inaceitáveis!
Verdades nossas, que escondemos até mesmo de nós, não podem ser descobertas e apontadas pelo outro. Isto sim é inaceitável. Ao outro, que apontou nossa verdade e colocou um dedo em nossa ferida, o nosso ódio, o nosso dedo em sua ferida sangrenta, a sua morte. Desejamos que o outro se esvaia, sangre e sofra. Como ousou desvendar nosso segredo? Como ousou descer aos nossos porões e revelar a verdade escondida? Como sobreviver à revelação?
Este filme, que retrata a dor e o medo, nos mostra que todos estamos sujeitos a enlouquecer, todos podemos, em algum momento, ser tomados pelo pânico, até mesmo os mais “fortes”, os que mais conhecem as armadilhas do inconsciente. Mas aos que se permitiram a dor de encarar seus monstros, iluminar seus porões é mais fácil, embora não menos doloroso, e sair destas armadilhas é possível.
LVT mistura dor e prazer, morte e sexo, medo e orgasmo. Nega-se o prazer quem sucumbiu aos seus desejos, quem colocou-os em primeiro lugar. Quem não pôde abrir mão do prazer em nome da vida deve arrancá-lo de si. Violentamente! Será que não é isto que fazemos em nossa vida? Será que não temos esta pulsão de morte? Este Tânatos? Será que muitas vezes nos entregamos ao prazer para satisfazer um instinto de destruição?
Além da densidade psicológica, AntiCristo tem cenas belíssimas, verdadeiros poemas! Não se engane com as primeiras impressões. Tudo que o filme também quer mostrar é que por trás da beleza reina o caos. Aguarde porque o caos virá. E não poupará!
Em entrevista LVT disse: “O roteiro foi finalizado e filmado sem muito entusiasmo, feito como se eu estivesse utilizando apenas metade da minha capacidade física e intelectual”, disse ainda. “O trabalho no roteiro não seguiu o meu modus operandi habitual. Cenas foram acrescentadas sem razão. Imagens foram compostas sem lógica ou função dramática. No geral, elas vieram de sonhos que eu tinha no período, ou sonhos que eu tive anteriormente.” Isto responde a quase tudo, este filme não seria tão visceral se LVT não tivesse se deixado levar pelo inconsciente, pelos seus desejos mais primários e recônditos. Resultado maravilhoso!
Este filme soca nosso estômago, agita nossas entranhas. Ninguém saiu ileso ao filme. Quem se entregou a AntiCristo jamais será o mesmo!
